segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Operação Condor de Celso Lungaretti

Recebi esse artigo pelo Consciencia.net do jornalista Celso Lungaretti.

27.12.07

A ITÁLIA QUER PUNIR A OPERAÇÃO CONDOR. O BRASIL, NÃO.

Celso Lungaretti (*)

A Justiça italiana acaba de pedir ao governo do Brasil que colabore no interrogatório, prisão e extradição de brasileiros envolvidos na Operação Condor, um esquema de colaboração informal que sete ditaduras sul-americanas mantiveram durante o período 1973/1980 para perseguir, aprisionar e atentar contra opositores que, exilados, estavam teoricamente fora do alcance de suas garras.

Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai foram as nações que facilitaram a atuação extraterritorial de agentes da repressão, na maioria das vezes capturando "subversivos" para serem secretamente recambiados a seus países de origem, supliciados em centros clandestinos de tortura e depois executados.

A ocultação dos cadáveres, para que não restassem indícios dos crimes cometidos, era o desfecho habitual dessas operações. Um documento secreto da Força Aérea Brasileira, datado de 1977, revela que se chegou a lançarem corpos no Rio La Prata, mas essa prática teve de ser abandonada porque estava "criando problemas para o Uruguai, como a aparição de cadáveres mutilados nas praias", passando-se então a utilizar "fornos crematórios dos hospitais do Estado (...) para a incineração de subversivos capturados".

Foi, enfim, uma alternativa hedionda a que as ditaduras recorreram para evitar os trâmites demorados dos processos de extradição e as garantias que o Direito internacional prescreve para os extraditados.

Um caso célebre no Brasil foi o seqüestro, em 1978, dos uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Díaz, vindos a Porto Alegre, com seus dois filhos, para denunciar os crimes da ditadura do seu país. Os quatro foram capturados e entregues às autoridades do Uruguai. Se a revista Veja não noticiasse, dificilmente teriam sobrevivido.

Só no ano 2000 Universindo Díaz sentiu-se suficientemente seguro para relatar o ocorrido. Segundo ele, os espancamentos começaram já no apartamento em que ele foi capturado e prosseguiram na sede do DOPS: "Nos bateram brutalmente. Nos colocaram no que chamam no Brasil de 'pau-de-arara' – dependurados do teto, pelados, nos deram choques elétricos, água fria, golpes, e assim nos foram interrogando durante horas e horas. Havia uma espécie de divisão internacional de trabalho – os brasileiros golpeavam e os uruguaios nos interrogaram".

O episódio de maior repercussão internacional foi a explosão de uma bomba no carro do ex-embaixador chileno Orlando Letelier, em pleno bairro diplomático de Washington, no ano de 1978. O atentado cometido por agentes da repressão política do Chile, a Dina, resultou na morte de Letelier e de sua secretária, causando tanta indignação nos EUA que o país deixou de apoiar a ditadura andina.

ATRASO, TIMIDEZ, IMPUNIDADE – A punição dos responsáveis por esse período negro da história sul-americana está acontecendo com atraso e timidez, face à enormidade dos crimes cometidos. Muitos carrascos morreram antes de responderem por suas atrocidades. Mas, pelo menos, sinaliza para os pósteros que nem sempre as regressões à barbárie ficam impunes.

O Uruguai condenou à prisão o ex-ditador Gregório Alvarez, em cujo governo "desapareceram" 20 cidadãos uruguaios aprisionados na Argentina e repatriados ilegalmente, não aceitando sua alegação de que desconhecia a existência da Operação Condor.

A morte livrou o antigo ditador chileno Augusto Pinochet de cumprir a merecida pena de prisão pela autoria de nove seqüestros e um homicídio, mas seu ex-chefe de Inteligência Manuel Contreras não escapou: foi condenado a 15 anos de detenção por ter planejado o assassinato de Letelier e está preso.

A Argentina também está prestes a julgar o ex-ditador Rafael Videla e 16 cúmplices, por crimes contra a humanidade.

E, agora, a juíza italiana Luisanna Figliolia expediu um mandado de prisão contra 140 pessoas suspeitas de participação na Operação Condor, dentre elas 11 brasileiros, 61 argentinos, 32 uruguaios e 22 chilenos. O caso tramita desde 1999, a partir de denúncias apresentadas por parentes de 25 italianos que desapareceram sob regimes militares na América Latina.

O ministro da Justiça Tarso Genro logo descartou a extradição, por considera-la "inconstitucional", dos acusados brasileiros. Ficou implícito que, na opinião do ministro, dificilmente eles serão punidos, embora Tarso vá tomar as providências burocráticas rotineiras, ao receber o pedido das autoridades italianas.

O Exército, por sua vez, informou ao UOL que não vai se pronunciar oficialmente sobre o caso, que está sob tutela do ministério da Justiça por envolver "a soberania brasileira". Essa preocupação com a soberania aparentemente não existia quando se franqueava o território nacional para a caçada a casais inofensivos e suas crianças.

Então, para nosso opróbrio, só nos resta concordar com o procurador da República italiano Giancarlo Capaldo: "Esse processo nasceu na Itália porque os países unidos em torno da Operação Condor decidiram não abrir investigações sobre o assunto. A Itália está fazendo o possível para evitar a impunidade e para que operações como essa não voltem a acontecer".

* Celso Lungaretti é jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/

====== POST SCRIPTUM: VÍTIMAS E ALGOZES ======

A nova edição do "Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos a partir de 1964", organizado pela Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, lista pelo menos seis brasileiros que desapareceram na Argentina como possíveis alvos da Operação Condor: Francisco Tenório Cerqueira Júnior (1976), Roberto Rascardo Rodrigues (1977), Luiz Renato do Lago Faria (1980), Maria Regina Marcondes Pinto de Espinosa (1976), Sidney Fix Marques dos Santos (1976) e Walter Kenneth Nelson Fleury (1976).

Os argentinos sumidos no Brasil são Norberto Armando Habegger (1978), Lorenzo Ismael Viñas (1980), Horacio Domingo Campiglia (1980), Mónica Susana Pinus de Binstock (1980), Jose Oscar Adur (1980), Liliana Inês Goldemberg (1980) e Eduardo Gonzalo Escabosa (1980). Os casos de Viñas e Campiglia passaram a ser investigados pela Justiça italiana no final dos anos 90 porque eles tinham dupla cidadania.

O primeiro desapareceu ao cruzar a fronteira da Argentina com o Brasil, de ônibus, perto de Uruguaiana (RS), e o segundo foi seqüestrado no aeroporto do Galeão, no Rio, junto com a guerrilheira Mónica Binstock. O processo na Itália resultou, no dia 24, em ordens de captura internacional emitidas pela Justiça italiana contra pelo menos 11 militares e policiais brasileiros. Os outros casos de argentinos desaparecidos no contexto da Operação Condor são investigados pela Justiça argentina. No Brasil, não há registro de processo criminal sobre o assunto.

"Pré-Condor", outras atividades conjuntas de países sob ditadura já haviam eliminado brasileiros no exterior. Documentos liberados recentemente citam, por exemplo, uma "Operação Mercúrio", que estaria por trás do desaparecimento, em janeiro de 1974, dos guerrilheiros brasileiros João Batista Rita Pereda e Joaquim Pires Cerveira. Nessa fase pré-Condor, outros seis brasileiros desapareceram no Chile entre 1973 e 1974: Antenor Machado dos Santos (1973), Jane Vanini (1974), Luis Carlos de Almeida (1973), Nelson Souza Kohl (1973), Túlio Roberto Cardoso Quintiliano (1973) e Wânio José de Matos (1973). Outro brasileiro, Luiz Renato Pires de Almeida, desapareceu na Bolívia em outubro de 1970.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Ecos da Ciência

Link da reportagem sobre o evento Ecos da Ciência que aconteceu entre setembro e dezembro de 2007 na Escola de Comunicação da UFRJ:

http://www.webtv.ufrj.br/index.php?option=com_content&task=view&id=213&Itemid=98

Ou entre no site:

www.webtv.ufrj.br

e acesse o link de Notícias.

FOS recomenda

Muito interessante o blog do Noam Chomsky:

http://www.zcommunications.org/zspace/noamchomsky

Vale a pena ser lido!

Fundo de Proteção e Conservação da Amazônia e desenvolvimento sustentável

Achei super legal esse texto retirado do site da Associação Brasileira de Instituições de Pesquisa

Do boletim Gestão C&T da Abipti

www.abipti.org.br/



Governo brasileiro anuncia Fundo de Proteção e Conservação da Amazônia

Com o objetivo de transformar a redução das emissões (de dióxido de carbono) por desmatamento em um sistema de financiamento da conservação e uso sustentável da floresta, o governo brasileiro criou o Fundo de Proteção e Conservação da Amazônia Brasileira. A iniciativa foi anunciada na semana passada (12), durante a 13ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-13), que aconteceu em Bali, na Indonésia.

De acordo com texto publicado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), o governo federal espera, com a implantação do fundo, atrair recursos adicionais para conservação da Amazônia e demonstrar a viabilidade do mecanismo de incentivos positivos, em discussão na convenção de mudanças do clima.

A captação de recursos para o fundo será realizada por meio de contribuições voluntárias de governos, empresas, organizações e indivíduos, baseado na redução de emissões de dióxido de carbono (CO²) oriundas do desmatamento.

O ministério ainda esclarece que, até 2010, os recursos serão direcionados somente ao bioma amazônico. Após este período, os demais biomas brasileiros também receberão investimentos do fundo que serão aplicados em ações como apoio direto a operações de monitoramento e controle, pagamento por serviços ambientais, treinamento e capacitação, entre outros. Parte dos recursos também será utilizada na transferência de tecnologias e experiências adquiridas pelo Brasil no controle do desmatamento para outros países tropicais.
Informações adicionais, pelo site
www.mma.gov.br.


domingo, 16 de dezembro de 2007

CLÁSSICOS DO TEATRO

PROJETO CLÁSSICOS NO TEATRO DO OPRIMIDO - CTO-Rio.

ANTÍGONA, de Sófocles.
(sexta feira, 21 de dezembro, 19h) Ingresso: R$30,00.

ROMEU E JULIETA, de W.Shakespeare.
(sexta feira, 21 de dezembro, 21h)
Ingresso: R$30,00.

LOCAL: CENTRO DE TEATRO DO OPRIMIDO - CTO-Rio.
R. Mem de Sá, 31. Lapa. Centro. Rio.


REALIZAÇÃO:
http://teatroderoda.org
21.2256-0930; 9877-2916
Maria Rita Rezende

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- ANTÍGONA, de SÓFOCLES (496 - 406 a.C.).
Tradução: Millôr Fernandes
Direção: Mariozinho Telles

ELENCO:
Maria Rita Rezende, Jorge Melo, Felipe Garcez,
Marcelo Santos, Priscila Jannuzzi e Malu Costa.

CLASSIFICAÇÃO: 10 anos

DURAÇÃO: 60 min.

Este espetáculo foi contemplado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam
Muniz com o patrocínio da Petrobras.

O conhecimento de ANTÍGONA, de Sófocles, é necessário a todas as pessoas que aspirem aos avanços civilizatórios da humanidade pela incomparável envergadura deste debate do indivíduo com a intransponível e impessoal autoridade do poder em um diálogo que se estende além das palavras e que invariavelmente só encontra o seu desfecho no desenrolar dos fatos que recaem sobre o indivíduo e refletem no Estado: a ação de Antígona é tida como o germe do chamado "direito natural", do qual deriva o "direito de resistência"; abre o precedente para a formulação de uma nova concepção jurídica, na Magna Carta de João Sem Terra, em 1215, "the law of land"; "due process of law", princípio genérico que vem encontrar a consagração em 1948 com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, formulada pela ONU em Paris, que determina que toda pessoa tem direito, em condições de plena igualdade, a ser ouvida publicamente e com justiça por um tribunal independente e imparcial, para a determinação de seus direitos e obrigações ou para o exame de qualquer acusação contra ela em matéria penal.

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- ROMEU E JULIETA, de WILLIAM SHAKESPEARE (1564 - 1616).
Tradução: Onestaldo de Pennafort
Direção e dramaturgia: Mariozinho Telles

ELENCO:
Maria Rita Rezende, Raoni Costa, Guilherme Salvador,
Monique Volter, Fabíola Ortiz e Mariozinho Telles.

CLASSIFICAÇÃO: 10 anos

DURAÇÃO: 75 min.

Este espetáculo foi contemplado pelo Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz com o patrocínio da Petrobras.

Montagem de ROMEU E JULIETA, de William Shakespeare, em abordagem contemporânea, despojada, com intenções coloquiais, poéticas e grandiloqüentes; ambienta na vida atual do Rio de Janeiro o conflito entre Montecchios e Capuletos, localiza seus personagens nas tribos e nos grupos da população desta cidade. O espetáculo enfoca os diferentes modos de tratamento dispensados às questões do amor e a violência como formas de expressão existencial, traz uma revisão histórica da interpretação usualmente dedicada à personagem Julieta Capuleto para resgatá-la como ícone libertário, da coerência, da integridade feminina e da dignidade humana.

Nos textos clássicos tanto se tem descoberto e interpretado quanto há por ser feito e inventado, à luz de cada época em que são revisitados e têm a sua mensagem consolidada através dos séculos, imprimindo, subsidiando e provocando a evolução do pensamento, o desenvolvimento humano. A atualidade encontrada na problemática de muitos dos seus enredos desafia o sentido da evolução de uma sociedade que celebra a sua era tecnológica.

O Projeto CLÁSSICOS DO TEATRO proporciona a iniciação, o desenvolvimento, o aprofundamento artístico, filosófico e cultural, através do estudo cênico, montagem e apresentação das obras clássicas do teatro universal, vivenciando a sabedoria contida em seus volumes, ensinamentos básicos da formação e do desenvolvimento da humanidade, criando um acesso aos valores contidos na ação de seus personagens e às tramas que tecem as relações da nossa sociedade, com as atividades do curso de interpretação, a encenação dos clássicos do teatro universal e a construção do repertório de espetáculos.

O Projeto Clássicos do Teatro teve o seu início em agosto de 2002, com as atividades do curso de interpretação, ministrado por Mariozinho Telles, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, no Rio de Janeiro, desenvolvendo estudos de Shakespeare e de Sófocles, encenando "Romeu e Julieta" e "Antígona", onde reúne o núcleo de atores do projeto em torno dos estudos e do repertório de espetáculos.

Mariozinho Telles - idealizador do Projeto CLÁSSICOS DO TEATRO.



Fotos













Apresentação Antígona na Casa de Cultura Laura Alvim (dez/2005)














Apresentação Antígona o CTO (out/2006)
















CTO (out/2006)
















CTO (out/2006)













CTO (out/2006)













Elenco Antígona CTO (out/2006)













Galerinha











Romeu e Julieta
CTO (out/2006)


39 anos depois do AI-5

Publicado no Consciência.net
Dezembro 13, 2007

O Brasil de hoje é resultado direto do autoritarismo decretado pelo AI-5. Trinta e nove anos depois, pouco mudou. O modelo continua concentrador de renda, exportador e extremamente violento em relação às classes subalternizadas (...) Por Marcelo Salles, do www.fazendomedia.com

Dia 13 de dezembro de 1968, uma sexta-feira. Foi nesse dia que a ditadura empresarial-militar decretou o infame AI-5, suspendendo as garantias individuais mais básicas e legalizando a opressão do Estado. A tortura foi efetivada como sistema de controle. Ser comunista era sinônimo de bandido.

Não sejamos inocentes. O golpe não veio para acabar com o “socialismo” de Jango. Ele veio, como demonstra René Dreifuss em seu clássico “1964: A Conquista do Estado”, para facilitar a implantação das multinacionais no país. As medidas socialistas de Jango eram: aumento do salário mínimo, reforma agrária, controle sobre as remessas de lucros, etc. Nada que os países capitalistas não fazem/fizeram. Os militares foram apenas os testas-de-ferro, que toparam fazer o serviço sujo para que certos empresários ganhassem muito dinheiro, ontem e hoje.

Vale lembrar que as corporações de mídia apoiaram o golpe e a ditadura que seqüestrou, torturou e matou milhares de brasileiros. Notícias eram omitidas ou distorcidas conforme os interesses dos políticos e empresários que se beneficiavam com o controle do Estado. Enquanto isso, setores estratégicos foram abandonados, como Educação e Saúde. Outros foram perigosamente submetidos aos interesses estadunidenses, como Energia, Comunicações e Transportes, além das próprias Forças Armadas.

O Brasil de hoje é resultado direto do autoritarismo decretado pelo AI-5. Trinta e nove anos depois, pouco mudou. O modelo continua concentrador de renda, exportador e extremamente violento em relação às classes subalternizadas. A disputa pela CPMF deixa isso bastante claro, seja por aquilo que explicita, seja pelas implicações omitidas.

O PT, que antes era contra a tarifa, agora é a favor. Diz que o povo não pode ficar sem os 40 bilhões da arrecadação. É o caso de perguntar: e antes, podia? Já PFL e PSDB, criadores do imposto, agora votam contra. Ou seja, as grandes iniciativas de que o país precisa são substituídas por essa pequeneza política tão hipócrita quanto infame.

(...)

Na verdade, o AI-5 nunca foi revogado. Enquanto existirem 72 milhões de brasileiros em situação de “insegurança alimentar”, conforme divulgou o IBGE no ano passado, a memória daquela sexta-feira 13 voltará a assombrar o povo brasileiro. Enquanto o salário mínimo for a quarta parte do mínimo necessário para sobreviver, não se pode dizer que o trabalhador brasileiro tem suas garantias individuais preservadas. Enquanto míseros 26% compreenderem aquilo que lêem, os golpistas de 64 estarão no comando do país.

Para começar a reverter esse estado de coisas, é preciso democratizar a mídia no Brasil. Os avanços serão sempre tímidos e insuficientes enquanto a esquerda não encarar a disputa das representações. É preciso entender que a mídia, hoje, é a instituição com maior poder de produção de subjetividades. Há outras, como a escola, a universidade, a família e etc., mas a mídia é a instituição mais poderosa porque atravessa todas as outras. E produzir subjetividades significa nada menos do que determinar formas de sentir, agir e viver. E votar.

Enquanto o país for dominado por uma mídia de direita, brutalmente concentrada e a serviço da exploração do povo, estaremos sempre em desvantagem. Por outro lado, se conseguirmos viabilizar novas formas de comunicar, fiscalizar a destinação das verbas públicas de publicidade e exigir que elas sejam igualmente distribuídas e garantir acesso à produção e divulgação a todos os setores da sociedade, conseguiremos avançar exponencialmente em todas as nossas batalhas.

Ou a esquerda entra de cabeça na luta pela democratização da mídia, ou será esmagada pelas forças do capital.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Brasil lidera pesquisa de preocupação com concentração na mídia

Os brasileiros se mostram os mais preocupados com a concentração dos meios de comunicação nas mãos de um 'pequeno número de grandes empresas do setor privado', revelou uma pesquisa de opinião sobre liberdade de imprensa feita em 14 países. A sondagem mostrou, no entanto, que os brasileiros também fazem a pior avaliação sobre o desempenho dos meios de comunicação financiados pelo governo. Matéria da BBC Brasil.

A sondagem – encomendada pelo Serviço Mundial da BBC e feita pelas empresas de pesquisa GlobeScane Synovate – avaliou a opinião de 11.344 pessoas por meio de um questionário. Segundo o levantamento, 80% dos brasileiros se mostram preocupados com a propriedade das companhias de mídia e acreditam que esse controle pode levar à 'exposição das visões políticas' de seus donos no noticiário. Entrevistados de outros países também compartilham da mesma opinião, como no México (76%), nos Estados Unidos (74%) e na Grã-Bretanha (71%).

A sondagem mostrou, no entanto, que ao mesmo tempo em que são os mais preocupados com o controle e a concentração privada na mídia, os brasileiros também fazem a pior avaliação sobre o desempenho dos meios de comunicação financiados pelo governo.

Nessa parte do questionário foi considerada a opinião das pessoas em relação à 'honestidade' e à 'precisão' com que os órgãos de comunicação, públicos e privados, tratam a notícia. De acordo com o estudo, 43% dos entrevistados acreditam que a cobertura do noticiário pelos órgãos públicos brasileiros é 'pobre'; 32%, mediana; e 25% dizem que ela é 'boa'.

Em contrapartida, os brasileiros tiveram uma opinião mais positiva quando foram indagados sobre o desempenho das empresas privadas: 37% acreditam que elas fazem um 'bom' trabalho, 38% afirmam que ela é mediana e 25% dizem que sua atuação é 'pobre'.

Voz

Os brasileiros também se mostraram os mais interessados em participar do processo de decisão sobre o que é noticiado: 74% dos entrevistados disseram que gostariam de 'ser ouvidos' na escolha das notícias. Nessa pergunta, em seguida vieram os mexicanos, com 63%. Os russos, com 29%, foram os entrevistados que se mostraram menos interessados em influenciar na escolha do que é noticiado.

A pesquisa ainda avaliou que os brasileiros parecem 'divididos' sobre a questão da liberdade de imprensa e estabilidade social. Enquanto 52% opinaram que a liberdade para informar os fatos de forma honesta e verdadeira é importante para garantir uma 'sociedade justa' – mesmo que isto implique em 'debates desagradáveis ou efervescências sociais' –, outros 48% acreditam que 'a harmonia e a paz social são mais importantes' e, portanto, o eventual controle do que é noticiado seria aceitável para o 'bem comum'.

Curiosamente, avalia o relatório, a Venezuela foi um dos países cuja população mais priorizou a liberdade de imprensa em detrimento da estabilidade social (64%). Entre todos os pesquisados, os americanos (70%), britânicos (67%) e alemães (67%) foram os que mais opinaram a favor da liberdade de imprensa como instrumento para garantir uma sociedade justa.

A pesquisa ouviu os entrevistados entre os dias 1º de outubro e 21 de novembro. A Oceania foi o único continente não incluído no levantamento. Na América Latina, o estudo foi realizado no Brasil, México e Venezuela.

O trabalho foi divulgado como parte das comemorações do 75º aniversário do Serviço Mundial da BBC.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Ivana Bentes - Diretora da Escola de Comunicação da UFRJ


Publicado no Olhar Virtual - 01 de fevereiro de 2007, Edição 146

Comunicação Social em alta

Fabíola Ortiz / Agn Praia Vermelha

Para falar um pouco mais sobre a carreira e o curso, as perspectivas do mercado de trabalho e a importância da comunicação atualmente, o Olhar Virtual conversou com a Diretora da Escola de Comunicação, Ivana Bentes.

Segundo a diretora, a demanda pelo curso de Comunicação Social não é uma grande novidade, “essa procura já ocorre há algum tempo”. E explica que o capitalismo contemporâneo compreende dois grandes setores: o da energia e o capitalismo de informação, isto é, “o petróleo e a mídia”. “O nosso grande concorrente ainda é petróleo”.

Hoje, tudo depende da produção de informação – seja no campo do visual, da imagem ou do texto. “Não há nenhum campo em que a comunicação não precise ser trabalhada, seja uma pequena ONG, a rede Globo de Televisão, uma loja de varejo, tudo isso exige a comunicação como ferramenta, seja para o marketing ou até mesmo para pensar sobre a cidadania” afirma Ivana Bentes.

De acordo com Ivana, nunca a comunicação foi tão importante em termos de cidadania como hoje, tornando-se um campo estratégico. “A comunicação e a mídia são tão estratégicas como o petróleo. As políticas de comunicação são hoje prioridades nas discussões do governo” e complementa “são grandes os interesses por trás da comunicação, na medida em que ela pode ser apropriada para os fins mais diferentes”.

O curso de Comunicação Social da UFRJ oferece uma formação versátil equilibrando conhecimentos teóricos, a fim de dar margem a uma visão crítica dos meios de comunicação, e o aprendizado prático em laboratórios. “Nós sempre tivemos o perfil de uma formação humanísitica de cultura geral e pensamento crítico, ao mesmo tempo que tentamos equilibrar, cada vez mais, à prática” afirma Ivana Bentes.

O setor de Extensão da Escola visa dar um aporte para incentivar projetos de alunos como programas audiovisuais ou de rádio. Ivana acredita que ao lado da discussão conceitual e teórica, a Escola deve se abrir para diferentes práticas de comunicação.

A diretora da ECO ressalta: “a consciência que queremos dar aos estudantes do curso é que meio a esse ambiente do capitalismo informacional mais sofisticado, é possível atuar no campo da cidadania e mudar a noção do poder dos meios de comunicação e de como eles são capazes de transformar a vida das pessoas cultural e socialmente”.

A duração do curso é de quatro anos. Nos períodos iniciais, o aluno cursa o Ciclo Básico e é introduzido às teorias e linguagens da comunicação, aos fundamentos das ciências humanas, e às opções de carreira oferecidas pela Escola. A partir do quarto período, o estudante ingressa no Ciclo Profissional em que escolhe uma das habilitações: Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Produção Editorial ou Rádio e TV. A ECO conta com uma Central de Produção e Multimídia (CPM) para estimular os alunos à produção de rádio e vídeo.

Sobre o mercado de trabalho Ivana acredita que “o mercado tradicional de jornalismo impresso está saturado, mas ao mesmo tempo nunca houve tanta possibilidade dos nossos alunos criarem o próprio emprego como agora”. Esse é um diferencial do aluno que se forma na ECO – por exemplo, montar uma agência de notícias, sites de cultura e atualidades, marketing, assessorias nos mais variados lugares com projetos sociais para a inclusão, educação à distância, cooperativas, ser um empreendedor social e cultural, e assim, criar uma nova possibilidade de inserção num mercado já saturado. “Enfim há um campo muito amplo de atuação, o terceiro setor tem uma deficiência muito grande e precisa de gente de comunicação”, afirma.

“A gente é super assediado pelos meios de comunicação, jornais da grande imprensa e sites” o que se confirma na disputa de alunos da ECO para as vagas de estágio. “Os alunos da Produção Editorial, por exemplo, saem todos empregados”, apesar do curso de PE ser pequeno, ele tem alta empregabilidade, pois “falta no mercado editorial o profissional que trabalhe com produção gráfica” explica.

O mercado de jornalismo nos meios de comunicação tradicionais está saturado, porém Ivana ressalta que o campo do audiovisual nunca foi tão necessário como hoje: produzir vídeo para grande ou pequena empresa, Ong, site pessoal ou profissional na internet.

Apesar da grande dificuldade de jovens profissionais se inserirem no mercado de trabalho, Ivana Bentes considera que o profissional da ECO tem “grandes chances, seja na grande imprensa, na TV a cabo, nas produtoras de vídeo, assessorias, agências de publicidade. O que a ECO deseja não é formar para o mercado existente, mas para o potencial. Os alunos de Comunicação da UFRJ têm o perfil pró-ativo, multifuncional e com uma ação crítica do mundo”.



http://olharvirtual.ufrj.br/2006/index.php?id_edicao=146

Série: Entrevistas

Professor Paulo César Guimarães

"Um bom repórter é aquele que apura bem, escreve bem, tem sensibilidade, tem sorte, é criativo, ousado. Você tem que ter talento e vocação. Não basta escrever bem. Um bom repórter vai sempre atrás do que a aconteceu, e traz informação.

O bom estudante leva vantagem, pois ele tem liberdade, muita oferta de informação e leitura. A questão do idioma, hoje quase todo jovem fala inglês e é essencial. O repórter tem que conhecer pelo menos o básico de computador. Não tem vaga para repórter hoje que não saiba inglês ou mexer em computador.

Dizem que a neutralidd não existe, é uma discussão antiga. Em parte é verdade. O repórter pode ter uma certa isenção, neutralidade dentro dos limites para o veículo no qual ele trabalha. Sempre procurei ter uma dignidade no trabalho que eu fazia e ir ao encontro com os interesses do patrão.

No jornalismo não tem vaga para ingênuo, tem que ser muito esperto, observar. O relacionamento com a informação é sempre muito complicado. É preciso pensar sempre no leitor, ter honestidade com o leitor.

O jovem repórter tem que saber o que está acontecendo. Não pode ter preconceito com nenhuma espécie, social, cultural, discriminação. Eu leio de tudo, tudo que cai na minha mão.

A minha referência de jornalismo: ainda tem lugar para a boa reportagem e para o bom repórter. É possível levantar questões polêmicas, a imprensa está se posicionado frente ao caso da violência no Rio de Janeiro.

Talvez uma outra tendência do jornalismo, um espaço do que se fala em jornalismo cidadão, na verdade, um articulista cidadão. É um jornal de artigos e não de reportagem.

O jornalista espanhol do El Pais, Jesus de la Serna, que disse uma vez 'para ser bom jornalista, tem que ter humildade, segundo, tem que ter humildd, e terceiro tem que ter humildade', eu nunca mais esqueci isso. O jornalismo expõe, mexe muito com a vaidade, se você não tiver humildade você pode acabar se perdendo. Muitos se acham acima da lei. Jornalista é uma pessoa vaidosa, com certeza.

O meu trabalho é mais alternativo. Para fazer reportagem diária é bom quando a gente tem até 30 anos.

O jornalismo é a melhor profissão do mundo, eu não sei fazer outra coisa. O jornalista é um pouco artista também, até porque tem que ter jogo de cintura, viver na corda bamba economicamente, culturalmente, politicamente, a gente é meio artista mesmo, ou pelo a gente se sente assim.

Sobre o Jornal de Debates

O Jornal de Debates é um jornal aberto a participaç ão de qualquer pessoa. Através do conselho editorial, são propostos os debates mas também aceitamos propostas de outras pessoas. O é chamar, convocar pessoas qualificadas para escrever sobre determinado assunto. É um jornal que circula na internet de acesso livre. Os editores se preocupam em chamer pessoas que tenham alguma coisa a dizer e que saibam escrever também e emitir a sua opinião. Cultura, economia, esporte, assuntos internacionais, cinema, literatrura, são muitos os temas tratados. O jornal já completou um ano."

Paulo Cezar Guimarães: Editor do Jornal de Debates no Rio de Janeiro – um jornal online aberto de acesso livre e promove debates sobre diversos temas da atualidade. Teve sua primeira experiência no jornal impresso Última Hora no Rio de Janeiro, trabalhou também no Diário de Notícias e durante oito anos como repórter no jornal O Globo, além de ter atuado na Revista Imprensa e ter sido assessor de comunicação social da Souza Cruz. Dá aulas há 21 anos e atualmente leciona jornalismo nas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA) no Rio de Janeiro.

Blog do Paulo Cezar:

http://blogdoprofessorpc.blogspot.com/

http://blogdoprofessorpc.blogspot.com/2007/12/entrevista-pro-site-inforel.html

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Desmatamento da Amazônia



Vale a pena colocar esse release que recebi pela WWF, Fundo Mundial para a Natureza que se consolidou como uma das mais respeitadas redes independentes de conservação da natureza.

O título é:

Queda no desmatamento anunciada pelo governonão reflete momento de hoje, avalia WWF-Brasil


Os números divulgados mostram realidade anterior à retomada do desmatamento observada nos últimos meses.

A queda de 20% nos índices do desmatamento na Amazônia Brasileira para o período 2006-2007 divulgada dia 6 de dezembro pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, em Belém, é um retrato da dinâmica do desmatamento tirado antes de agosto desse ano. Durante a estação seca de 2007 (de julho a setembro), dados do Sistema Deter do próprio Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontaram uma retomada no crescimento do desmatamento na região. Porém, esse período apenas será computado nas taxas a serem divulgadas no final do ano que vem.

Os números divulgados nesta quinta-feira retratam a situação do desmatamento entre os períodos de agosto de 2006 a julho de 2007. Dados do Inpe apontam ainda que, nos últimos meses, foi observado significativo aumento na incidência de focos de calor na Amazônia Brasileira em relação ao ano passado.

Denise Hamú, secretária-geral do WWF-Brasil, ressalta que os números divulgados ontem requerem uma análise cuidadosa. “Não podemos esquecer que os 11.224 km2 de floresta derrubada apresentados pelo governo federal correspondem à realidade do desmatamento até julho de 2007 e não refletem as tendências do que vem ocorrendo nos últimos meses, como sugerem, por exemplo, tanto os dados do sistema Deter, do Inpe, quanto outros levantamentos”, diz.

A secretária-geral do WWF-Brasil salienta que a metodologia do Inpe para monitorar o desmatamento é confiável, tendo por base dados coletados com uso de tecnologia de ponta, interpretados e analisados por uma equipe extremamente qualificada. “Porém, a área desmatada na Amazônia entre agosto de 2006 e julho de 2007 ainda é imensa: corresponde a mais de 11 mil campos de futebol”, alerta Denise Hamú.

Para o superintendente de Conservação do WWF-Brasil, Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, é importante destacar que variáveis de mercado, como oscilações nos preços das commodities agrícolas, especialmente carne bovina e soja, têm sido um fator fundamental na dinâmica do desmatamento da Amazônia.

Scaramuzza explica que a frágil estrutura fundiária na região e um aparato de fiscalização limitado fazem com que aspectos econômicos tenham um significativo grau de influência nos índices de desmatamento. “A ausência do Estado em diversas partes da Amazônia faz com que a grilagem seja muito lucrativa, abrindo campo para o desmatamento, seja ele voltado para atividade madeireira, pecuária ou agricultura”, diz.

Para o WWF-Brasil, ações levadas a cabo nos últimos anos pelo Poder Público, como a criação de áreas protegidas e ações de fiscalização têm contribuído para reduzir o desmatamento, mas não são suficientes. O fato de que nenhuma unidade de conservação federal tenha sido criada na Amazônia em 2007 deve ser visto com grande preocupação, assim como a resistência do governo federal em adotar metas internas de redução do desmatamento.

O superintendente afirma ainda que uma política sustentável e efetiva de combate ao desmatamento precisa ir além do que tem sido feito. “Além de criar áreas protegidas e fortalecer a estrutura fundiária na Amazônia, é necessário incrementar a capacidade de instituições federais e locais em implementar políticas florestais sustentáveis e desenvolver mecanismos financeiros que estimulem atividades econômicas sustentáveis adequadas às florestas e aos demais ecossistemas amazônicos, como por exemplo manejo florestal de mínimo impacto ou adoção de critérios sociais e ambientais para outras produções”, conclui Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza.


http://www.wwf.org.br/

O WWF-Brasil é uma organização não-governamental brasileira dedicada à conservação da natureza com os objetivos de harmonizar a atividade humana com a conservação da biodiversidade e promover o uso racional dos recursos naturais em benefício dos cidadãos de hoje e das futuras gerações. O WWF-Brasil, criado em 1996 e sediado em Brasília, desenvolve projetos em todo o país e integra a Rede WWF, a maior rede independente de conservação da natureza, com atuação em mais de 100 países e o apoio de cerca de 5 milhões de pessoas, incluindo associados e voluntários.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Sites interessantes









Justiça Global:

http://www.global.org.br/











Instituto Sou da Paz:

http://www.soudapaz.org/









Envolverde: Revista digital de ambiente, educação e cidadania:

http://envolverde.ig.com.br/








Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (UFRJ):

http://www.necvu.ifcs.ufrj.br/







Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo:

http://www.nevusp.org/portugues/









Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (UFMG):

http://www.crisp.ufmg.br/home.htm

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Olha o PAC aí...

Hoje sexta feira, dia 30 de novembro, o presidente Lula veio ao Rio. Sua agenda está lotada, uma das atividades foi a visita às favelas do Cantagalo e Pavão-pavãozinho. São as primeiras favelas que o presidente visitou depois de ter sido eleito. A visita de Lula foi para marcar o lançamento das obras com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

As favelas de Ipanema vão ser as primeiras a darem início às obras de grande porte. Vão ser
obras de urbanização, sistema de água, esgoto, alargamento das ruas, praça e construção de áreas de lazer, além de melhoria na rede de iluminação. Cerca de 35 milhões de reais vão ser investidos nas obras dessas duas favelas e vai contar com a participação de mais de 1000 moradores que vão trabalhar nas obras.

Nessa semana, também foram concedidas as licenças ambientais que liberaram o início das obras do PAC também nas favelas da Rocinha, Manguinhos e do Alemão.

Na Rocinha que é considerada a maior favela da América Latina, o governo quer construir mais de 200 unidades habitacionais, creche, centro de saúde para desafogar o hospital Miguel Couto, na zona sul. A intervenção abrange 810 milhões de metros quadrados, e a estimativa é que 120 mil moradores da Rocinha vão ser mais beneficiados.

No complexo do Alemão, que fica na Penha, vai ser um milhão de metros quadrados que as obras vão intervir. Entre as obras de infraestrutural e habitacional, também está previsto a construção de um parque para lazer Além disso, a idéia de construir um teleférico para ligar a estação de trem de Bonsucesso a alguns pontos da favela.

E em Manguinhos, há também a idéia de criar o Parque Metropolitano com campos de futebol e quadras poliesportivas e quase 900 moradias.

O governo prevê que as obras estejam concluídas em dois anos. Nessas três obras, vão ser empregados mais de 910 milhões de reais.

Pois é, tudo isso o governo federal prevê realizar com os recursos do PAC. Parece até propaganda.... vamos ver no que isso vai dar.

O presidente de uma das 3 associações de moradores da Rocinha, o Carlos Costa, espera que os tão esperados investimentos se consolidem de verdade e não fiquem só no papel. Ele quer que sejam construídos espaços que não caracterizem a Rocinha como favela. O que falta, diz ele, são investimentos na qualificação profissional e escolas técnincas para os moradores.

"Qualquer intervenção que seja para melhorias da condição de vida das pessoas é bem-vinda. Mas não sei se a questão é de quantidade ou se é de qualidade. A quantidade hoje é razoável, mesmo que ainda não seja suficiente, mas não adianta criar uma nova intervenção se não criar condições de cuidado com aqueles espaços que já existem. Emergencial é infra-estrutura, saneamento básico, urbanização, além da criação de espaços de lazer de cultura para o desenvolvimento humano, escolas técnicas de boa qualidade com capacitação profissional. A gente quer viver num espaço considerado bairro, mas que ainda tem a característica de favela", disse.

O jeito é acompanhar as mudanças e esperar para daqui a dois anos avaliarmos o que de fato saiu do papel.

Fabíola Ortiz

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Série: entrevistas

Edna Dantas

Chefia o escritório da Radiobrás no Rio de Janeiro há 2 anos e meio.

Desafio

“O jornalista tem muitos desafios pela frente. Hoje tem uma figura nova que é o jornal online, muito rápido, muito ágil e que já causa um grande impacto na mídia impressa. Isso me preocupa por um lado. A questão da rapidez, eu tenho muito medo da informação errada, do prejuízo que ela causa muitas vezes. A gente não tem noção às vezes do quanto uma informação errada pode ser maléfica. Um instrumento que é de extrema utilidade, para o cidadão de uma maneira geral, quando ela é mal dada ou equivocada, traz um prejuízo enorme. Se não traz para a população em geral, mas pode trazer para um indivíduo. Isso é um custo muito alto. Eu reflito muito isso. A gente tem que ser rápido, é uma característica dessa profissão, obviamente que quem chega primeiro com a informação acaba se destacando do ponto de vista das empresas. Mas há uma série de riscos dentro disso.”

Jornalismo público

“A vantagem de se trabalhar numa empresa pública, talvez a gente não precise ter essa sede. Nós podemos ser rápidos, mas se tivermos que desacelerar para chegar com uma informação mais correta, podemos nos dar esse luxo. Não estamos competindo no mercado do ponto de vista comercial. A audiência é importância é obvio que é.

A gente tem muita coisa parecida, jornalismo é jornalismo em qualquer lugar, no caso da empresa pública, aumenta a responsabilidade. Do ponto de vista da empresa publica, quem está custeando isso é o publico de uma maneira geral, é a população brasileira, a nossa responsabilidade aumenta ainda mais. A gente não pode errar, a gente erra, mas não pode errar. A gente tem a obrigação de dar vozes ao maior número de pessoas. O jornalismo público tem muito esse papel de tentar se aprofundar mais nos assuntos. A gente está ainda muito distante nesse assunto. Tem espaço dentro das programações, a gente tem matéria de maior fôlego, a Rádio Nacional promove debates que a gente se aprofunda nos assuntos. Tem que trazer a discussão, temas que dizem mais respeito à vida das pessoas. A gente pode dar alguma outra abordagem. Isso tudo ainda é uma busca. A nossa estrutura é pequena, as emissoras públicas no Brasil não são grandes. Tinha uma cultura antiga, a gora está se conceituando mais o jornalismo público, como ele deve ser.

Com a tv pública, uma das funções é essa, abrir mais espaço para repercussões, mais reflexões. A gente tem que tentar trabalhar melhor esses formatos.

O rádio perdeu muito espaço para a tv, mas ele está se mostrando um veículo muito forte e que está permitindo aproveitar essas novas mídias, o rádio pela internet, por exemplo. O rádio tem longa vida, vai mudar porque a tecnologia está mudando. O advento do rádio digital vai permitir o volume de informação maior. O rádio ainda tem tudo para crescer e potencializar. O rádio é companheiro, continua sendo, está em qualquer lugar. Mas ele tem que se modernizar um pouco na linguagem, isso é um fator determinante para a sua sobrevivência, são adaptações. Nos formatos, a gente está precisando fazer mais radiodocumentário, sem ser chato, tentado usar de algumas ferramentas de sonoplastia, sonorização, trilhas. O som diz muito da realidade.”

O factual

“A gente tem que ter o factual, mas não pode perder de vista o processo, a contextualização, o acompanhamento do processo como fato, o fato tem um desenrolar. Muitas vezes, é comum a todos os veículos, fazer um acompanhamento das coisas. Às vezes dá um destaque no rádio, na tv, e esquece de acompanhar o que está acontecendo mais. Se o problema persiste. Esse é o ideal, mas há também toda uma questão de viabilidade econômica, os fatos vão se sobrepondo uns aos outros. A gente tem que na medida do possível buscar. Vai ter sempre aquele dia que não tem nada acontecendo, um vazio de notícias. Esses momentos seriam momentos para fazer algumas reflexões. Seria um momento do jornalismo ir a campo, deixar o telefone e o computador de lado.”

Papel do jornalismo

Edna concorda que o jornalismo tenha um papel de transformação social, “é um papel fundamental e cada dia, o papel é importante e a responsabilidade também. Quando a gente lança um fato e gera uma polêmica, por sermos formador de opinião, às vezes a gente esquece assuntos tão importantes que não estão na pauta dos jornais, meramente por uma polêmica, a polêmica pela polêmica. Mas acho que tem muita coisa boa sendo feita. Eu estou nesta profissão há quase 22 anos e não saberia fazer outra coisa. É claro que passo por crise como todo jornalista passa. Essa função social, às vezes quando você pára para fazer um balanço, o que será que eu consegui até hoje. Na verdade a imprensa tem conseguido muito. A gente vive um momento de um estado democrático onde se fala e se escreve tudo. Faz parte do processo de amadurecimento da imprensa. A gente passou muito tempo com a liberdade cerceada, eu acho que a gente se lambuzou muito no período da abertura, do governo Collor. Depois veio um vazio de notícias, sem muito critério. Tem a amadurecer muito ainda.”

O mercado

“Se eu fosse comprar com a minha época recém saída da faculdade, tem mais gente no mercado, uma competição maior, muitas universidades estão formando pessoas. Mas ainda continua a regra da qualidade, do empenho da dedicação. Por outro lado surgiram novos veículos e novas formas. Abriu-se caminho para aqueles jornalistas que querem trabalhar na assessoria de imprensa, na comunicação corporativa, tem também a internet que é um verdadeiro mundo a ser explorado e que pode gerar emprego, a questão do 3o setor, o rádio, as rádios comunitárias. Tem que ralar, tem que trabalhar muito. Tem duas questões: querer muito uma coisa e se dedicar. Essa profissão é uma profissão de dedicação. No início de carreira, o repórter tem que se mostrar aberto para trabalhar, e além disso tem que mostrar quem é bom. Tem gente, por exemplo, que nasceu para ser editor e pensar uma pauta, que nasceu para ser pauteiro, outro para ser repórter, ir para a rua, ter o contato com as pessoas, conquistar uma fonte, criar uma relação com ela. Aquele jornalista que, independentemente do veículo que ele esteja trabalhando, consegue ser considerado respeitado de confiança que não deturpa a informação, bem enfim um profissional. Tem diferentes perfis. Não basta só escrever, um repórter tem que saber escrever pelo menos corretamente, ter nexo, escrever com sentido. A pessoa não precisa ser brilhante e sim correta, simples, direta e objetiva a informação, e assim a história está contada. Tem gente que consegue ter um texto brilhante e ser um bom repórter, isso é o ideal.

Quando eu era mais jovem, tinha a tendência a ver sempre uma teoria da conspiração por trás de tudo. Eu já trabalhei nos maiores veículos do país: na Veja, na Isto é, Época, na Folha de São Paulo, no Estado de São Paulo. Eu senti muito pouco a pressão dos anunciantes, como repórter eu não sei se eu era inocente demais, as redações fluem naturalmente. É claro q tem os interesse, tem temas que são de interesse da empresa, o repórter tem como fazer isso normalmente.”

A imparcialidade

“A objetividade é um ideal, mas não é tão fácil de conseguir não. Na hora que pauta o repórter, já embuti um certo direcionamento, é um recorte, se é certo ou errado, se é bom ou ruim, depende de quem está lendo. A questão de ouvir todos os lados é fundamental, de preferência dando espaço igual para todos os lados. Eu acho que a imparcialidade é muito difícil, a gente não tem que perder de vista, tem que sempre buscar. Eu até acho que falta um pouco dessa subjetividade na descrição de uma cena. Por exemplo, um jornalista vai cobrir um tiroteio, pelo simples fato dele estar lá, ele é uma testemunha ocular dos fatos, como diria o Repórter Esso. A gente pode traduzir isso no texto que escreve. Podemos evitar os adjetivos, mas sim usar a descrição. Você está fazendo um relato do que você está vendo. O leitor tem vai confiar em você, você tem que se fazer confiar, não pode criar fatos, criar o que você não viu. Aí ficam aqueles textos frios, secos, sem vida. É quase a mesma coisa que ficar na redação, o repórter vai para a rua e às vezes ele não sabe se comportar e volta com uma matéria muito parecida com que ele teria feito dentro da redação pelo telefone. Isso falta um pouco para dar um molho, falta molho no jornalismo, as revistas fazem isso. Já fizeram mais, hoje tem muita opinião com informação, falta o molho, o sabor, transportar o leitor para o lugar onde o repórter estiver.”

O jovem jornalista


“Eu me preocupo muito com o jovem jornalista. Eu sou de uma geração e sinto falta daquele ímpeto jornalista de correr atrás de uma coisa nova, uma exclusiva, o furo de denúncia é fundamental, mas a cosia de revelar novos Brasis, personagens. O repórter hoje briga pouco por isso, se acomoda muito fácil. É todo muito fácil mas tudo muito igual, uniforme. Tem lugar para a boa reportagem, mas o repórter tem que ter apoio do veículo que ele trabalha. Os veículos estão com pouco dinheiro, investindo pouco em viagens o que dificulta a vida do repórter. Uma cidade como o Rio de Janeiro é um mundo, tem tudo. Há um certo comodismo, eu espero muito que essa nova geração venha menos preocupada com o glamour da profissão”.

Fabíola Ortiz

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

SÉRIE: entrevistas

Essa semana a pedido de um jornalista em Brasília, editor do site Inforel.org, escrevi sobre o jornalismo e a profissão de jornalista. Isso me deu uma idéia, resolvi entrevistar alguns jornalistas e um aspirante à carreira para saber um pouco mais do que eles pensavam sobre o próprio ofício.

Confesso que foi corrido, mas em poucos dias consegui entrevistar pessoalmente a diretora da Radiobrás aqui no Rio, Edna Dantas, um professor de jornalismo de uma universidade, Paulo Cezar Guimarães e um aluno que está prestes a se formar na Escola de Comunicação, Raphael Ferreira de 22 anos.

Além disso, consegui por email algumas opiniões do ex-chefe da agência internacional de notícias Efe aqui no Brasil, Eduardo Plastino. Tentei insistentemente entrar em contato com a jornalista uruguaia Beatriz Bissio do Cadernos do Terceiro Mundo, que me disse estar fora do Rio de Janeiro (pretendo ainda entrar em contato com ela, gostaria muito de saber a sua opinião sobre a profissão).

Para complementar a matéria, resgatei uma entrevista que o jornalista português ex-correspondente da RTP, Carlos Fino, deu para um grupo de estudantes em um curso em São Paulo, além de utilizar uma matéria feita por mim mesma com a diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, Ivana Bentes, na época que eu estagiava na Agência de Notícias da própria universidade para o boletim online Olhar Virtual.

Ao escrever a matéria, até por questão de espaço, tive que reduzir e deixar de lado muitas questões abordadas pelos entrevistados.

Com toda essa introdução, resolvi publicar aos poucos as entrevistas que eu consegui fazer tentando aproveitar todos as questões e críticas apontadas pelos entrevistados.

Para abrir a "série", antes mesmo de colocar a primeira entrevista, pensei em publicar um trabalho que fiz para a faculdade em 2005 para a disciplina Técnica de Reportagem. O desafio era escrever o perfil de um jornalista. Escolhi escrever sobre a jornalista que havia pouco conhecera, Carla Mendes, correspondente internacional para a agência de notícias portuguesa, LUSA.

Acho que vale colocar aqui.

Perfil de uma jornalista

Niterói, 10.30hs – hora marcada para a entrevista. Carla Mendes, jornalista formada na Universidade Federal de Minas Gerais, final dos anos 60 e início dos anos 70, já estava à espera no local combinado, na piscina de um prédio residencial no bairro de Ingá.

E lá estava realizando práticas de meditação e lium kung. Ao fundo, uma musiquinha oriental, bem relaxante. “Já estou quase terminando”, corta o silêncio e continua com seus movimentos leves por mais vinte minutos.

Mora em Brasília e trabalha como correspondente para a Agência Internacional de Notícias Portuguesa, LUSA, há mais de cinco anos. Só no Brasil inteiro são dois os jornalistas incumbidos de cobrir para a LUSA, ela é um deles.

Vestindo um short da cor preta e deixando à mostra a parte de cima do biquini da mesma cor, senta-se na mesa ao lado da piscina. “Vamos começar” diz, aprontando-se para a conversa. Em um domingo de sol como este, não esquece o protetor solar, os óculos escuros e o boné. Anda a tiracolo com uma bolsinha de mão contendo um celular, um livro e um caderninho de anotações, imprescindível mesmo para as horas de descanso.

“Na minha época de faculdade tive muitas dúvidas entre Comunicação e Psicologia, cheguei até a pedir transferência de curso, mas meus professores não deixaram”. Tendo saído de casa aos dezoito anos, decidiu ser independente. “Fui morar sozinha, eu queria batalhar a minha vida, não depender de ninguém”.

E foi assim que Carla viveu mesmo antes de formada. Autonomia era seu estilo de vida e independência seu principal objetivo. Estagiou na Associação Brasileira de Odontologia (ABO) e na TV Alterosa (da rede do SBT) como produtora de um programa de entrevista.

“Logo quando eu me formei, comecei a fazer o meu currículo. Não tinha nada nele”, conta que saiu entregando o currículo para os diretores de TV. “Eu era muito convicta na minha profissão, eu sabia que era isso mesmo que eu queria”. Num momento retrospectivo disse: “um grande amigo meu hoje em dia, que já foi meu chefe na época de recém-formada até chegou a dizer ‘nossa, você não tinha nada no seu currículo, mas você falava com tanta convicção que até eu acreditava’”.

Trabalhando para a TV Manchete, um episódio marcante em sua vida foi durante a cobertura das eleições no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) em Minas Gerais. “Não sei como foi exatamente, mas acabei entrando numa salinha onde a Globo tinha armado todo um esquema para a contagem de votos”. Toda a informação de lá saia diretamente para a emissora. “Eu tinha um radinho de pilha só para ouvir e acabei entrando na salinha e comecei a ouvir toda a conversa, e o que eles falavam em voz alta. Mandei tudo para a Manchete antes mesmo da Globo lançar a informação.Você não acredita, eu ia para o banheiro, ficava escondida e contava tudo por telefone. Quando o diretor da Globo descobriu, ficou uma fera: ‘quem é que está boicotando as minhas informações?’. No futuro, anos depois, Carla trabalharia com ele na Globo. “O pior que ele me reconheceu... nem eu lembrava mais daquele episódio... ‘como é que eu ia me esquecer de você com aquele radinho de pilha’, ele brincava”.

Esse evento lhe rendeu a contratação como produtora na TV Manchete. Durante três meses Carla trabalhou na produção e passou mais dois anos na reportagem. “A minha área sempre foi mais televisão”.

“Na Globo foi uma passagem rápida, fui convidada para substituir a repórter do Jornal Nacional”, conta que foi no ano de 1985, “nessa época eu queria mesmo era ir para a Europa”.

Sua aventura na Europa começou em 1986 em Portugal, 88 na Itália e 89 na Alemanha. Saiu do Brasil como correspondente da Rádio Alvorada e penou para conseguir algum trabalho na imprensa européia. “Eu tinha uma cara-de-pau como todo jornalista, ‘Boa tarde, meu nome é Carla Mendes...’. Eu ia na cara e na coragem. Fui mandando matérias com o meu currículo para vários jornais da Europa.”

Em Portugal trabalhou na área de Assessoria de Imprensa para uma agência de publicidade. A Itália foi um breve capítulo em sua trajetória, “prefiro não comentar, foi uma experiência pessoal muito ruim na minha vida”. Carla ajeita-se na cadeira e respira fundo.

Seguiu para a Alemanha com o namorado alemão também jornalista. Ela o conhecera em Portugal. “Eu não sabia nada da Alemanha, mas não agüentava mais Portugal, eu queria desafio”.

“Em 1989 peguei a queda do Muro de Berlim”. A sua chegada na Alemanha foi um tanto quanto conturbada. Roubaram todas as suas coisas em Hamburgo. “Perdi tudo, todo o meu passado, meus livros, minha história, todas as minhas matérias publicadas, os contatos e referências que eu tinha do mundo inteiro. Foi horrível”, lamentou-se.

Foi um momento de profunda solidão, um mergulho em si mesma. “Eu me descobri lá. Antes eu era uma Carla, depois da Alemanha eu virei outra. Foi muita dor, muito sofrimento, era o fundo do poço, ou você conseguia sobreviver e se fortalecer ou você afundava”.

Carla conta que depois de haver chorado todas as suas mágoas, “peguei uma garrafa de champagne, fui para o Brandenburg Tor comemorar o reveillon e celebrar a queda do muro”. Para ela, uma experiência inesquecível. “Cobri toda a queda do Muro e o processo de reunificação política da Alemanha para a imprensa portuguesa O Jornal”.

Foi um marco histórico em sua vida. “Era uma multidão, podia ter acontecido um grande massacre. Era gente querendo atravessar o muro de um lado para o outro: gente de Berlim Ocidental querendo ver como era o lado Oriental e vice e versa. Nós vimos a bandeira da RDA sendo arriada, um momento muito emocionante”.

Para ela foram experiências inéditas, “é muito interessante conhecer o outro lado, como se estivéssemos vendo uma ‘carroça’ o atrasado em relação ao supérfluo. O capitalismo foi um movimento de invasão tão grande, que eu questiono isso: foi quase um estupro”.

Diz que o que lhe marcou na lembrança foi conhecer um pouco a história do muro, o reencontro das famílias, muitas mortes, pessoas tomando conhecimento de familiares mortos, o choque cultural. “O muro caiu, mas até hoje existe um muro invisível”.

Sua estadia na Alemanha terminou em 1994, “depois o país já estava reunificado, e eu não tinha mais nada para fazer lá”.

Voltou para o Brasil e para a TV Manchete como editora. Suas aventuras não pararam por aí: trabalhou durante um ano na TV Assembléia na parte de edição. “Era muito trabalho, muito estresse e não havia condições. A produção era tão ruim que acabei montando uma nova produção. Eu fazia de tudo lá, fui âncora, editora, fazia edição final, dirigia debates, mil coisas”.

Depois transferiu-se para o Canal 23, um canal da TV a cabo local, como chefia de redação. “Não era fácil, tinha muita gente nova, e para coordenar todo mundo era uma loucura”.

Fez até campanha política para um candidato do PSB no estado de Minas. “Foi uma experiência diferente. Era tanto programa que não tinha ninguém para fechar, a estrutura era muito pequena para a carga de trabalho”. Carla pode conhecer mais as entranhas da política, os jogos de chantagens, “a sujeirada toda”.

Está na LUSA desde 2000. “Antes a LUSA tinha uma estrutura maior. A agência tinha um projeto muito interessante para o Brasil, mas não conseguiu manter o projeto inicial, "megalômano". A LUSA acabou reduzir a equipe toda limitando-se apenas a dois jornalistas, um em São Paulo e outro em Brasília, cada um trabalha em casa”.

Carla fala sobre a carreira de jornalismo: “é uma profissão muito difícil, em geral mal-remunerada. Mas é profundamente desafiadora. Você abre a cabeça e aprende a lidar com diversas realidades. Um dia você pode estar conversando com uma autoridade, um prefeito, e no dia seguinte, com um morador sem-teto da mesma maneira de agir e falar. É uma carreira difícil, é muito estresse... como eu batalhei...”.

Finaliza o encontro encorajando aos estudantes que pretendem seguir a carreira de jornalista: “Dou muito valor àqueles jornalistas recém formados ou estagiários que vêm se apresentar com o currículo na mão, sem indicação de ninguém, na cara e na coragem. Já tive que selecionar currículos e sempre deixei de lado aqueles que tinham indicação de deputado, autoridades... Porque foi assim que eu fiz, eu não conhecia ninguém, e foi desse jeito que eu batalhei”.



Fabíola Ortiz, 2005.

A pauta do dia: aquecimento/esquecimento global e degradação ambiental

E com vocês... mais um pouco de meio ambiente: A sustentabilidade no jornalismo


Essa semana na disciplina de Jornalismo de Políticas Públicas na Escola de Comunicação da UFRJ que é realizado em parceria com a ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), o convidado para falar foi o jornalista André Trigueiro para tratar sobre a temática do jornalismo ambiental e a sustentabilidade.

Atualmente André Trigueiro apresenta o Jornal das 10 na Globonews, criou o programa semanal "Cidades e Soluções", e aos sábados apresenta o programa na rádio CBN "Mundo Sustentável" - também título de seu livro lançado em 2005.

A primeira crítica que Trigueiro fez foi em relação a criação de uma editoria especial para Jornalismo Ambiental. Nesse sentido, Trigueiro é incisivo: seria muito pobre fazer uma segmentação da realidade.

Para ele, todas as editorias deveriam conter a sustentabildade como tema que perpassa as pautas e os assuntos abordados. Desde os impactos econômicos sobre o desenvolvimentos, ou a questão política do Protocolo de Kyoto que prevê a redução de emissões de CO2 em 5,2%, em relação aos níveis de 1990 para o período que vai 2008 a 2012. Até o momento, 23 países, incluindo Bolívia, Equador, El Salvador e Nicarágua, já ratificaram o protocolo, e outros 84 países, entre eles os Estados Unidos, somente o assinaram.

Os assuntos ambientais estão presentes em todas as editorias. Trigueiro estabelece que em vez de jornalistas ambientais , é mais interessante e imprescindível formar jornalistas que tenham uma visão mais sistêmica sobre omundo.

Ele não descarta o lead como uma ferramenta necessária para promover a tão buscada objetividade no jornalismo. Mas para o jornalista, não se pode perder a perspectiva de enxergar outros aspectos também relevantes de uma pauta. Em parte, até concordo com ele. O "lide" não precisa ser encarado para limitar, restringir e enquadrar a matéria. Muita coisa diferente pode ser feita, e o lide pode até contribuir na estruturação da matéria.

O jornalismo é imediatista, está sempre atrelado à velocidade e ao tempo. Trigueiro reconhece que pela questão da rapidez de dar a notícia, "às vezes a gente não tem tempo de enxergar sistemicamente".

Algo interessante em sua fala, foi que ser jornalista no Brasil é completamente diferente do que ser em qualquer outro lugar do mundo. O Brasil é o país com a maior reserva de água doce do mundo, tem a maior floresta tropical no planeta, preserva o maior patrimônio de biodiversidade, além de ter a maior quantidade de solo fértil do mundo (sem nem levar em conta as áreas protegidas).

Para ele, ser jornalista interessado no meio ambiente no Brasil significa saber resgatar o valor desse tesouro de forma sustentável. Não só isso, entre outras críticas está a carência de discussão na mídia entre os conceitos de crescimento e desenvolvimento, que muitas vezes são empregados na imprensa sem critério e distinção. A sustentabilidade deve ser uma discussão que permeia o debate do desenvolvimento e crescimento do país.

Trigueiro faz uma rápida distinção: o crescimento engloba números, dados, estatísticas (por exemplo, o PIB de um país que não necessariamente expresa de forma qualitativa a situação). Já o desenvolvimento é a qulaidade do número, a compreensão nos seus mais variados aspectos e não apenas econômico.

Vale aqui caracterizar a forma não sustentável de se utilizar dos recursos mundiais do planeta Terra: retirar algo que não seja reposto a tempo. A forma nao sustentável de exploração dos recursos naturais se dá quando ela é superior à capacidade de recomposição, isto é, a capacidade de suporte e de resiliência (recuperação).

Trigueiro apresenta alguns dados do Banco Mundial em que as 25 cidades mais poluídas do mundo, mais de 10 delas são chinesas, entre elas uma é Pequim - a mesma cidade que vai sediar as Olimpíadas de 2008. No caso da China, a cada 2 dias acontece um desastre ambiental - entre chuvas ácidas e a redução do nível do lençol freático que já diminuiu cerca de 60 metros.

No auge de sua discussão, Trigueiro solta uma pérola: "o jornalismo ambiental é subversivo e incomoda os interesses econômicos de muita gente". É verdade.

Aproximando à realidade brasileira: a recente descoberta monumental de reserva de petróleo. Em tempos de aquecimento global, a queima de combustível fóssil vai na contramão de um esforço global na diminuição dos índices de emissão de CO2. O custo ambiental do petróleo é muito grande.

O jornalista apresenta uma tendência futura (mas bem próxima) de tipificar o preço do petróleo de acordo com o custo ambiental. Isto é, os preços de cada produto ou serviço vão variar de acordo com o desgaste ambiental. O consumidor vai passar a ter a necessidade de ser informado quais produtos gastam mais CO2 para que o próprio consumidor/cidadão possa fazer a sua escolha. Ou seja, o preço vai internalizar o custo que o Estado e a sociedade vão ter para produzir certos produtos.

"O que será o mundo daqui a 8 anos?" - se pergunta Trigueiro.

Atualmente, a Petrobrás investe cerca de 1,5% em energia renováveis como - solar, eólica, biomassa, biodiesel, álcool - o que ele considera muito pouco. A empresa deve ter um comprometimento em investir mais em fontes de energia renovável.

E quanto aos jornalistas, Trigueiro também não deixa passar: "somos analfabetos ambientais, ainda não estamos preparados para investigar aquilo que não está no realease". Para ele, é imprescindível questionar e duvidar, o que muitos jornalistas não fazem e aceitam o que está nas propostas de pauta de assessorias de imprensa. É preciso estrapolar o limite da pauta oferecido pelo editor.

Não basta só informar: é preciso que a informação remeta a uma nova atitude. Não vale apenas compartilhar informação, tem que transformar. Trigueiro destaca a urgência de transformação: "e não basta mudar, tem que mudar logo".

É uma questão de consciência: não pela disponibilidade de recursos e sim quanto à gestão desses recursos. Esse é um momento único na humanidade. O jornalista alerta para a emergência da crise ambiental sem precedência. Segundo dados da WWF ( World Wildlife Fund/Fundo Mundial para a Natureza), 20% da humanidade utiliza 80% dos recursos. O planeta Terra está operando em um déficit de 25% de sua capacidade de suporte.

"Nós não somos sustentáveis, o tempo urge, nós precisamos nos reeducar", afirma Trigueiro. Os ecossitemas naturais do planeta não são inesgotáveis, e uma vez atingido, afetado, ele não consegue se restabelecer e voltar ao normal.

"O aquecimento global é um tema complicado de tratar na imprensa. Não importa o que fazemos hoje só vai se percebido em não menos de 100 anos, o resultado será visto por outras pessoas", diz.

Para tratar o tema na imprensa, Trigueiro dá a dica: é preciso utilizar o bom senso e não ser alarmista e indicar possibilidades, formas de reverter o processo, e a mudança deve ser feita já.

"É preciso ter calibragem na hora de tratar o assunto, isso não é pessimismo, é realismo. Vivemos numa cidade ignorando o impacto causado pleo nosso estilo de vida", ele defende um exercício e uma reeducação para a responsabilidade cidadã, principalmente no que se refere ao consumismo - ostentar onde há escassez, a maioria das pessoas não têm nem o básico para sobrevier. Trigueiro é crítico feroz e contrário ao consumismo compulsivo.

Fabíola Ortiz


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