segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Desmatamento da Amazônia



Vale a pena colocar esse release que recebi pela WWF, Fundo Mundial para a Natureza que se consolidou como uma das mais respeitadas redes independentes de conservação da natureza.

O título é:

Queda no desmatamento anunciada pelo governonão reflete momento de hoje, avalia WWF-Brasil


Os números divulgados mostram realidade anterior à retomada do desmatamento observada nos últimos meses.

A queda de 20% nos índices do desmatamento na Amazônia Brasileira para o período 2006-2007 divulgada dia 6 de dezembro pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, em Belém, é um retrato da dinâmica do desmatamento tirado antes de agosto desse ano. Durante a estação seca de 2007 (de julho a setembro), dados do Sistema Deter do próprio Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) apontaram uma retomada no crescimento do desmatamento na região. Porém, esse período apenas será computado nas taxas a serem divulgadas no final do ano que vem.

Os números divulgados nesta quinta-feira retratam a situação do desmatamento entre os períodos de agosto de 2006 a julho de 2007. Dados do Inpe apontam ainda que, nos últimos meses, foi observado significativo aumento na incidência de focos de calor na Amazônia Brasileira em relação ao ano passado.

Denise Hamú, secretária-geral do WWF-Brasil, ressalta que os números divulgados ontem requerem uma análise cuidadosa. “Não podemos esquecer que os 11.224 km2 de floresta derrubada apresentados pelo governo federal correspondem à realidade do desmatamento até julho de 2007 e não refletem as tendências do que vem ocorrendo nos últimos meses, como sugerem, por exemplo, tanto os dados do sistema Deter, do Inpe, quanto outros levantamentos”, diz.

A secretária-geral do WWF-Brasil salienta que a metodologia do Inpe para monitorar o desmatamento é confiável, tendo por base dados coletados com uso de tecnologia de ponta, interpretados e analisados por uma equipe extremamente qualificada. “Porém, a área desmatada na Amazônia entre agosto de 2006 e julho de 2007 ainda é imensa: corresponde a mais de 11 mil campos de futebol”, alerta Denise Hamú.

Para o superintendente de Conservação do WWF-Brasil, Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, é importante destacar que variáveis de mercado, como oscilações nos preços das commodities agrícolas, especialmente carne bovina e soja, têm sido um fator fundamental na dinâmica do desmatamento da Amazônia.

Scaramuzza explica que a frágil estrutura fundiária na região e um aparato de fiscalização limitado fazem com que aspectos econômicos tenham um significativo grau de influência nos índices de desmatamento. “A ausência do Estado em diversas partes da Amazônia faz com que a grilagem seja muito lucrativa, abrindo campo para o desmatamento, seja ele voltado para atividade madeireira, pecuária ou agricultura”, diz.

Para o WWF-Brasil, ações levadas a cabo nos últimos anos pelo Poder Público, como a criação de áreas protegidas e ações de fiscalização têm contribuído para reduzir o desmatamento, mas não são suficientes. O fato de que nenhuma unidade de conservação federal tenha sido criada na Amazônia em 2007 deve ser visto com grande preocupação, assim como a resistência do governo federal em adotar metas internas de redução do desmatamento.

O superintendente afirma ainda que uma política sustentável e efetiva de combate ao desmatamento precisa ir além do que tem sido feito. “Além de criar áreas protegidas e fortalecer a estrutura fundiária na Amazônia, é necessário incrementar a capacidade de instituições federais e locais em implementar políticas florestais sustentáveis e desenvolver mecanismos financeiros que estimulem atividades econômicas sustentáveis adequadas às florestas e aos demais ecossistemas amazônicos, como por exemplo manejo florestal de mínimo impacto ou adoção de critérios sociais e ambientais para outras produções”, conclui Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza.


http://www.wwf.org.br/

O WWF-Brasil é uma organização não-governamental brasileira dedicada à conservação da natureza com os objetivos de harmonizar a atividade humana com a conservação da biodiversidade e promover o uso racional dos recursos naturais em benefício dos cidadãos de hoje e das futuras gerações. O WWF-Brasil, criado em 1996 e sediado em Brasília, desenvolve projetos em todo o país e integra a Rede WWF, a maior rede independente de conservação da natureza, com atuação em mais de 100 países e o apoio de cerca de 5 milhões de pessoas, incluindo associados e voluntários.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Sites interessantes









Justiça Global:

http://www.global.org.br/











Instituto Sou da Paz:

http://www.soudapaz.org/









Envolverde: Revista digital de ambiente, educação e cidadania:

http://envolverde.ig.com.br/








Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (UFRJ):

http://www.necvu.ifcs.ufrj.br/







Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo:

http://www.nevusp.org/portugues/









Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (UFMG):

http://www.crisp.ufmg.br/home.htm

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Olha o PAC aí...

Hoje sexta feira, dia 30 de novembro, o presidente Lula veio ao Rio. Sua agenda está lotada, uma das atividades foi a visita às favelas do Cantagalo e Pavão-pavãozinho. São as primeiras favelas que o presidente visitou depois de ter sido eleito. A visita de Lula foi para marcar o lançamento das obras com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

As favelas de Ipanema vão ser as primeiras a darem início às obras de grande porte. Vão ser
obras de urbanização, sistema de água, esgoto, alargamento das ruas, praça e construção de áreas de lazer, além de melhoria na rede de iluminação. Cerca de 35 milhões de reais vão ser investidos nas obras dessas duas favelas e vai contar com a participação de mais de 1000 moradores que vão trabalhar nas obras.

Nessa semana, também foram concedidas as licenças ambientais que liberaram o início das obras do PAC também nas favelas da Rocinha, Manguinhos e do Alemão.

Na Rocinha que é considerada a maior favela da América Latina, o governo quer construir mais de 200 unidades habitacionais, creche, centro de saúde para desafogar o hospital Miguel Couto, na zona sul. A intervenção abrange 810 milhões de metros quadrados, e a estimativa é que 120 mil moradores da Rocinha vão ser mais beneficiados.

No complexo do Alemão, que fica na Penha, vai ser um milhão de metros quadrados que as obras vão intervir. Entre as obras de infraestrutural e habitacional, também está previsto a construção de um parque para lazer Além disso, a idéia de construir um teleférico para ligar a estação de trem de Bonsucesso a alguns pontos da favela.

E em Manguinhos, há também a idéia de criar o Parque Metropolitano com campos de futebol e quadras poliesportivas e quase 900 moradias.

O governo prevê que as obras estejam concluídas em dois anos. Nessas três obras, vão ser empregados mais de 910 milhões de reais.

Pois é, tudo isso o governo federal prevê realizar com os recursos do PAC. Parece até propaganda.... vamos ver no que isso vai dar.

O presidente de uma das 3 associações de moradores da Rocinha, o Carlos Costa, espera que os tão esperados investimentos se consolidem de verdade e não fiquem só no papel. Ele quer que sejam construídos espaços que não caracterizem a Rocinha como favela. O que falta, diz ele, são investimentos na qualificação profissional e escolas técnincas para os moradores.

"Qualquer intervenção que seja para melhorias da condição de vida das pessoas é bem-vinda. Mas não sei se a questão é de quantidade ou se é de qualidade. A quantidade hoje é razoável, mesmo que ainda não seja suficiente, mas não adianta criar uma nova intervenção se não criar condições de cuidado com aqueles espaços que já existem. Emergencial é infra-estrutura, saneamento básico, urbanização, além da criação de espaços de lazer de cultura para o desenvolvimento humano, escolas técnicas de boa qualidade com capacitação profissional. A gente quer viver num espaço considerado bairro, mas que ainda tem a característica de favela", disse.

O jeito é acompanhar as mudanças e esperar para daqui a dois anos avaliarmos o que de fato saiu do papel.

Fabíola Ortiz

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Série: entrevistas

Edna Dantas

Chefia o escritório da Radiobrás no Rio de Janeiro há 2 anos e meio.

Desafio

“O jornalista tem muitos desafios pela frente. Hoje tem uma figura nova que é o jornal online, muito rápido, muito ágil e que já causa um grande impacto na mídia impressa. Isso me preocupa por um lado. A questão da rapidez, eu tenho muito medo da informação errada, do prejuízo que ela causa muitas vezes. A gente não tem noção às vezes do quanto uma informação errada pode ser maléfica. Um instrumento que é de extrema utilidade, para o cidadão de uma maneira geral, quando ela é mal dada ou equivocada, traz um prejuízo enorme. Se não traz para a população em geral, mas pode trazer para um indivíduo. Isso é um custo muito alto. Eu reflito muito isso. A gente tem que ser rápido, é uma característica dessa profissão, obviamente que quem chega primeiro com a informação acaba se destacando do ponto de vista das empresas. Mas há uma série de riscos dentro disso.”

Jornalismo público

“A vantagem de se trabalhar numa empresa pública, talvez a gente não precise ter essa sede. Nós podemos ser rápidos, mas se tivermos que desacelerar para chegar com uma informação mais correta, podemos nos dar esse luxo. Não estamos competindo no mercado do ponto de vista comercial. A audiência é importância é obvio que é.

A gente tem muita coisa parecida, jornalismo é jornalismo em qualquer lugar, no caso da empresa pública, aumenta a responsabilidade. Do ponto de vista da empresa publica, quem está custeando isso é o publico de uma maneira geral, é a população brasileira, a nossa responsabilidade aumenta ainda mais. A gente não pode errar, a gente erra, mas não pode errar. A gente tem a obrigação de dar vozes ao maior número de pessoas. O jornalismo público tem muito esse papel de tentar se aprofundar mais nos assuntos. A gente está ainda muito distante nesse assunto. Tem espaço dentro das programações, a gente tem matéria de maior fôlego, a Rádio Nacional promove debates que a gente se aprofunda nos assuntos. Tem que trazer a discussão, temas que dizem mais respeito à vida das pessoas. A gente pode dar alguma outra abordagem. Isso tudo ainda é uma busca. A nossa estrutura é pequena, as emissoras públicas no Brasil não são grandes. Tinha uma cultura antiga, a gora está se conceituando mais o jornalismo público, como ele deve ser.

Com a tv pública, uma das funções é essa, abrir mais espaço para repercussões, mais reflexões. A gente tem que tentar trabalhar melhor esses formatos.

O rádio perdeu muito espaço para a tv, mas ele está se mostrando um veículo muito forte e que está permitindo aproveitar essas novas mídias, o rádio pela internet, por exemplo. O rádio tem longa vida, vai mudar porque a tecnologia está mudando. O advento do rádio digital vai permitir o volume de informação maior. O rádio ainda tem tudo para crescer e potencializar. O rádio é companheiro, continua sendo, está em qualquer lugar. Mas ele tem que se modernizar um pouco na linguagem, isso é um fator determinante para a sua sobrevivência, são adaptações. Nos formatos, a gente está precisando fazer mais radiodocumentário, sem ser chato, tentado usar de algumas ferramentas de sonoplastia, sonorização, trilhas. O som diz muito da realidade.”

O factual

“A gente tem que ter o factual, mas não pode perder de vista o processo, a contextualização, o acompanhamento do processo como fato, o fato tem um desenrolar. Muitas vezes, é comum a todos os veículos, fazer um acompanhamento das coisas. Às vezes dá um destaque no rádio, na tv, e esquece de acompanhar o que está acontecendo mais. Se o problema persiste. Esse é o ideal, mas há também toda uma questão de viabilidade econômica, os fatos vão se sobrepondo uns aos outros. A gente tem que na medida do possível buscar. Vai ter sempre aquele dia que não tem nada acontecendo, um vazio de notícias. Esses momentos seriam momentos para fazer algumas reflexões. Seria um momento do jornalismo ir a campo, deixar o telefone e o computador de lado.”

Papel do jornalismo

Edna concorda que o jornalismo tenha um papel de transformação social, “é um papel fundamental e cada dia, o papel é importante e a responsabilidade também. Quando a gente lança um fato e gera uma polêmica, por sermos formador de opinião, às vezes a gente esquece assuntos tão importantes que não estão na pauta dos jornais, meramente por uma polêmica, a polêmica pela polêmica. Mas acho que tem muita coisa boa sendo feita. Eu estou nesta profissão há quase 22 anos e não saberia fazer outra coisa. É claro que passo por crise como todo jornalista passa. Essa função social, às vezes quando você pára para fazer um balanço, o que será que eu consegui até hoje. Na verdade a imprensa tem conseguido muito. A gente vive um momento de um estado democrático onde se fala e se escreve tudo. Faz parte do processo de amadurecimento da imprensa. A gente passou muito tempo com a liberdade cerceada, eu acho que a gente se lambuzou muito no período da abertura, do governo Collor. Depois veio um vazio de notícias, sem muito critério. Tem a amadurecer muito ainda.”

O mercado

“Se eu fosse comprar com a minha época recém saída da faculdade, tem mais gente no mercado, uma competição maior, muitas universidades estão formando pessoas. Mas ainda continua a regra da qualidade, do empenho da dedicação. Por outro lado surgiram novos veículos e novas formas. Abriu-se caminho para aqueles jornalistas que querem trabalhar na assessoria de imprensa, na comunicação corporativa, tem também a internet que é um verdadeiro mundo a ser explorado e que pode gerar emprego, a questão do 3o setor, o rádio, as rádios comunitárias. Tem que ralar, tem que trabalhar muito. Tem duas questões: querer muito uma coisa e se dedicar. Essa profissão é uma profissão de dedicação. No início de carreira, o repórter tem que se mostrar aberto para trabalhar, e além disso tem que mostrar quem é bom. Tem gente, por exemplo, que nasceu para ser editor e pensar uma pauta, que nasceu para ser pauteiro, outro para ser repórter, ir para a rua, ter o contato com as pessoas, conquistar uma fonte, criar uma relação com ela. Aquele jornalista que, independentemente do veículo que ele esteja trabalhando, consegue ser considerado respeitado de confiança que não deturpa a informação, bem enfim um profissional. Tem diferentes perfis. Não basta só escrever, um repórter tem que saber escrever pelo menos corretamente, ter nexo, escrever com sentido. A pessoa não precisa ser brilhante e sim correta, simples, direta e objetiva a informação, e assim a história está contada. Tem gente que consegue ter um texto brilhante e ser um bom repórter, isso é o ideal.

Quando eu era mais jovem, tinha a tendência a ver sempre uma teoria da conspiração por trás de tudo. Eu já trabalhei nos maiores veículos do país: na Veja, na Isto é, Época, na Folha de São Paulo, no Estado de São Paulo. Eu senti muito pouco a pressão dos anunciantes, como repórter eu não sei se eu era inocente demais, as redações fluem naturalmente. É claro q tem os interesse, tem temas que são de interesse da empresa, o repórter tem como fazer isso normalmente.”

A imparcialidade

“A objetividade é um ideal, mas não é tão fácil de conseguir não. Na hora que pauta o repórter, já embuti um certo direcionamento, é um recorte, se é certo ou errado, se é bom ou ruim, depende de quem está lendo. A questão de ouvir todos os lados é fundamental, de preferência dando espaço igual para todos os lados. Eu acho que a imparcialidade é muito difícil, a gente não tem que perder de vista, tem que sempre buscar. Eu até acho que falta um pouco dessa subjetividade na descrição de uma cena. Por exemplo, um jornalista vai cobrir um tiroteio, pelo simples fato dele estar lá, ele é uma testemunha ocular dos fatos, como diria o Repórter Esso. A gente pode traduzir isso no texto que escreve. Podemos evitar os adjetivos, mas sim usar a descrição. Você está fazendo um relato do que você está vendo. O leitor tem vai confiar em você, você tem que se fazer confiar, não pode criar fatos, criar o que você não viu. Aí ficam aqueles textos frios, secos, sem vida. É quase a mesma coisa que ficar na redação, o repórter vai para a rua e às vezes ele não sabe se comportar e volta com uma matéria muito parecida com que ele teria feito dentro da redação pelo telefone. Isso falta um pouco para dar um molho, falta molho no jornalismo, as revistas fazem isso. Já fizeram mais, hoje tem muita opinião com informação, falta o molho, o sabor, transportar o leitor para o lugar onde o repórter estiver.”

O jovem jornalista


“Eu me preocupo muito com o jovem jornalista. Eu sou de uma geração e sinto falta daquele ímpeto jornalista de correr atrás de uma coisa nova, uma exclusiva, o furo de denúncia é fundamental, mas a cosia de revelar novos Brasis, personagens. O repórter hoje briga pouco por isso, se acomoda muito fácil. É todo muito fácil mas tudo muito igual, uniforme. Tem lugar para a boa reportagem, mas o repórter tem que ter apoio do veículo que ele trabalha. Os veículos estão com pouco dinheiro, investindo pouco em viagens o que dificulta a vida do repórter. Uma cidade como o Rio de Janeiro é um mundo, tem tudo. Há um certo comodismo, eu espero muito que essa nova geração venha menos preocupada com o glamour da profissão”.

Fabíola Ortiz

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

SÉRIE: entrevistas

Essa semana a pedido de um jornalista em Brasília, editor do site Inforel.org, escrevi sobre o jornalismo e a profissão de jornalista. Isso me deu uma idéia, resolvi entrevistar alguns jornalistas e um aspirante à carreira para saber um pouco mais do que eles pensavam sobre o próprio ofício.

Confesso que foi corrido, mas em poucos dias consegui entrevistar pessoalmente a diretora da Radiobrás aqui no Rio, Edna Dantas, um professor de jornalismo de uma universidade, Paulo Cezar Guimarães e um aluno que está prestes a se formar na Escola de Comunicação, Raphael Ferreira de 22 anos.

Além disso, consegui por email algumas opiniões do ex-chefe da agência internacional de notícias Efe aqui no Brasil, Eduardo Plastino. Tentei insistentemente entrar em contato com a jornalista uruguaia Beatriz Bissio do Cadernos do Terceiro Mundo, que me disse estar fora do Rio de Janeiro (pretendo ainda entrar em contato com ela, gostaria muito de saber a sua opinião sobre a profissão).

Para complementar a matéria, resgatei uma entrevista que o jornalista português ex-correspondente da RTP, Carlos Fino, deu para um grupo de estudantes em um curso em São Paulo, além de utilizar uma matéria feita por mim mesma com a diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, Ivana Bentes, na época que eu estagiava na Agência de Notícias da própria universidade para o boletim online Olhar Virtual.

Ao escrever a matéria, até por questão de espaço, tive que reduzir e deixar de lado muitas questões abordadas pelos entrevistados.

Com toda essa introdução, resolvi publicar aos poucos as entrevistas que eu consegui fazer tentando aproveitar todos as questões e críticas apontadas pelos entrevistados.

Para abrir a "série", antes mesmo de colocar a primeira entrevista, pensei em publicar um trabalho que fiz para a faculdade em 2005 para a disciplina Técnica de Reportagem. O desafio era escrever o perfil de um jornalista. Escolhi escrever sobre a jornalista que havia pouco conhecera, Carla Mendes, correspondente internacional para a agência de notícias portuguesa, LUSA.

Acho que vale colocar aqui.

Perfil de uma jornalista

Niterói, 10.30hs – hora marcada para a entrevista. Carla Mendes, jornalista formada na Universidade Federal de Minas Gerais, final dos anos 60 e início dos anos 70, já estava à espera no local combinado, na piscina de um prédio residencial no bairro de Ingá.

E lá estava realizando práticas de meditação e lium kung. Ao fundo, uma musiquinha oriental, bem relaxante. “Já estou quase terminando”, corta o silêncio e continua com seus movimentos leves por mais vinte minutos.

Mora em Brasília e trabalha como correspondente para a Agência Internacional de Notícias Portuguesa, LUSA, há mais de cinco anos. Só no Brasil inteiro são dois os jornalistas incumbidos de cobrir para a LUSA, ela é um deles.

Vestindo um short da cor preta e deixando à mostra a parte de cima do biquini da mesma cor, senta-se na mesa ao lado da piscina. “Vamos começar” diz, aprontando-se para a conversa. Em um domingo de sol como este, não esquece o protetor solar, os óculos escuros e o boné. Anda a tiracolo com uma bolsinha de mão contendo um celular, um livro e um caderninho de anotações, imprescindível mesmo para as horas de descanso.

“Na minha época de faculdade tive muitas dúvidas entre Comunicação e Psicologia, cheguei até a pedir transferência de curso, mas meus professores não deixaram”. Tendo saído de casa aos dezoito anos, decidiu ser independente. “Fui morar sozinha, eu queria batalhar a minha vida, não depender de ninguém”.

E foi assim que Carla viveu mesmo antes de formada. Autonomia era seu estilo de vida e independência seu principal objetivo. Estagiou na Associação Brasileira de Odontologia (ABO) e na TV Alterosa (da rede do SBT) como produtora de um programa de entrevista.

“Logo quando eu me formei, comecei a fazer o meu currículo. Não tinha nada nele”, conta que saiu entregando o currículo para os diretores de TV. “Eu era muito convicta na minha profissão, eu sabia que era isso mesmo que eu queria”. Num momento retrospectivo disse: “um grande amigo meu hoje em dia, que já foi meu chefe na época de recém-formada até chegou a dizer ‘nossa, você não tinha nada no seu currículo, mas você falava com tanta convicção que até eu acreditava’”.

Trabalhando para a TV Manchete, um episódio marcante em sua vida foi durante a cobertura das eleições no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) em Minas Gerais. “Não sei como foi exatamente, mas acabei entrando numa salinha onde a Globo tinha armado todo um esquema para a contagem de votos”. Toda a informação de lá saia diretamente para a emissora. “Eu tinha um radinho de pilha só para ouvir e acabei entrando na salinha e comecei a ouvir toda a conversa, e o que eles falavam em voz alta. Mandei tudo para a Manchete antes mesmo da Globo lançar a informação.Você não acredita, eu ia para o banheiro, ficava escondida e contava tudo por telefone. Quando o diretor da Globo descobriu, ficou uma fera: ‘quem é que está boicotando as minhas informações?’. No futuro, anos depois, Carla trabalharia com ele na Globo. “O pior que ele me reconheceu... nem eu lembrava mais daquele episódio... ‘como é que eu ia me esquecer de você com aquele radinho de pilha’, ele brincava”.

Esse evento lhe rendeu a contratação como produtora na TV Manchete. Durante três meses Carla trabalhou na produção e passou mais dois anos na reportagem. “A minha área sempre foi mais televisão”.

“Na Globo foi uma passagem rápida, fui convidada para substituir a repórter do Jornal Nacional”, conta que foi no ano de 1985, “nessa época eu queria mesmo era ir para a Europa”.

Sua aventura na Europa começou em 1986 em Portugal, 88 na Itália e 89 na Alemanha. Saiu do Brasil como correspondente da Rádio Alvorada e penou para conseguir algum trabalho na imprensa européia. “Eu tinha uma cara-de-pau como todo jornalista, ‘Boa tarde, meu nome é Carla Mendes...’. Eu ia na cara e na coragem. Fui mandando matérias com o meu currículo para vários jornais da Europa.”

Em Portugal trabalhou na área de Assessoria de Imprensa para uma agência de publicidade. A Itália foi um breve capítulo em sua trajetória, “prefiro não comentar, foi uma experiência pessoal muito ruim na minha vida”. Carla ajeita-se na cadeira e respira fundo.

Seguiu para a Alemanha com o namorado alemão também jornalista. Ela o conhecera em Portugal. “Eu não sabia nada da Alemanha, mas não agüentava mais Portugal, eu queria desafio”.

“Em 1989 peguei a queda do Muro de Berlim”. A sua chegada na Alemanha foi um tanto quanto conturbada. Roubaram todas as suas coisas em Hamburgo. “Perdi tudo, todo o meu passado, meus livros, minha história, todas as minhas matérias publicadas, os contatos e referências que eu tinha do mundo inteiro. Foi horrível”, lamentou-se.

Foi um momento de profunda solidão, um mergulho em si mesma. “Eu me descobri lá. Antes eu era uma Carla, depois da Alemanha eu virei outra. Foi muita dor, muito sofrimento, era o fundo do poço, ou você conseguia sobreviver e se fortalecer ou você afundava”.

Carla conta que depois de haver chorado todas as suas mágoas, “peguei uma garrafa de champagne, fui para o Brandenburg Tor comemorar o reveillon e celebrar a queda do muro”. Para ela, uma experiência inesquecível. “Cobri toda a queda do Muro e o processo de reunificação política da Alemanha para a imprensa portuguesa O Jornal”.

Foi um marco histórico em sua vida. “Era uma multidão, podia ter acontecido um grande massacre. Era gente querendo atravessar o muro de um lado para o outro: gente de Berlim Ocidental querendo ver como era o lado Oriental e vice e versa. Nós vimos a bandeira da RDA sendo arriada, um momento muito emocionante”.

Para ela foram experiências inéditas, “é muito interessante conhecer o outro lado, como se estivéssemos vendo uma ‘carroça’ o atrasado em relação ao supérfluo. O capitalismo foi um movimento de invasão tão grande, que eu questiono isso: foi quase um estupro”.

Diz que o que lhe marcou na lembrança foi conhecer um pouco a história do muro, o reencontro das famílias, muitas mortes, pessoas tomando conhecimento de familiares mortos, o choque cultural. “O muro caiu, mas até hoje existe um muro invisível”.

Sua estadia na Alemanha terminou em 1994, “depois o país já estava reunificado, e eu não tinha mais nada para fazer lá”.

Voltou para o Brasil e para a TV Manchete como editora. Suas aventuras não pararam por aí: trabalhou durante um ano na TV Assembléia na parte de edição. “Era muito trabalho, muito estresse e não havia condições. A produção era tão ruim que acabei montando uma nova produção. Eu fazia de tudo lá, fui âncora, editora, fazia edição final, dirigia debates, mil coisas”.

Depois transferiu-se para o Canal 23, um canal da TV a cabo local, como chefia de redação. “Não era fácil, tinha muita gente nova, e para coordenar todo mundo era uma loucura”.

Fez até campanha política para um candidato do PSB no estado de Minas. “Foi uma experiência diferente. Era tanto programa que não tinha ninguém para fechar, a estrutura era muito pequena para a carga de trabalho”. Carla pode conhecer mais as entranhas da política, os jogos de chantagens, “a sujeirada toda”.

Está na LUSA desde 2000. “Antes a LUSA tinha uma estrutura maior. A agência tinha um projeto muito interessante para o Brasil, mas não conseguiu manter o projeto inicial, "megalômano". A LUSA acabou reduzir a equipe toda limitando-se apenas a dois jornalistas, um em São Paulo e outro em Brasília, cada um trabalha em casa”.

Carla fala sobre a carreira de jornalismo: “é uma profissão muito difícil, em geral mal-remunerada. Mas é profundamente desafiadora. Você abre a cabeça e aprende a lidar com diversas realidades. Um dia você pode estar conversando com uma autoridade, um prefeito, e no dia seguinte, com um morador sem-teto da mesma maneira de agir e falar. É uma carreira difícil, é muito estresse... como eu batalhei...”.

Finaliza o encontro encorajando aos estudantes que pretendem seguir a carreira de jornalista: “Dou muito valor àqueles jornalistas recém formados ou estagiários que vêm se apresentar com o currículo na mão, sem indicação de ninguém, na cara e na coragem. Já tive que selecionar currículos e sempre deixei de lado aqueles que tinham indicação de deputado, autoridades... Porque foi assim que eu fiz, eu não conhecia ninguém, e foi desse jeito que eu batalhei”.



Fabíola Ortiz, 2005.

A pauta do dia: aquecimento/esquecimento global e degradação ambiental

E com vocês... mais um pouco de meio ambiente: A sustentabilidade no jornalismo


Essa semana na disciplina de Jornalismo de Políticas Públicas na Escola de Comunicação da UFRJ que é realizado em parceria com a ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), o convidado para falar foi o jornalista André Trigueiro para tratar sobre a temática do jornalismo ambiental e a sustentabilidade.

Atualmente André Trigueiro apresenta o Jornal das 10 na Globonews, criou o programa semanal "Cidades e Soluções", e aos sábados apresenta o programa na rádio CBN "Mundo Sustentável" - também título de seu livro lançado em 2005.

A primeira crítica que Trigueiro fez foi em relação a criação de uma editoria especial para Jornalismo Ambiental. Nesse sentido, Trigueiro é incisivo: seria muito pobre fazer uma segmentação da realidade.

Para ele, todas as editorias deveriam conter a sustentabildade como tema que perpassa as pautas e os assuntos abordados. Desde os impactos econômicos sobre o desenvolvimentos, ou a questão política do Protocolo de Kyoto que prevê a redução de emissões de CO2 em 5,2%, em relação aos níveis de 1990 para o período que vai 2008 a 2012. Até o momento, 23 países, incluindo Bolívia, Equador, El Salvador e Nicarágua, já ratificaram o protocolo, e outros 84 países, entre eles os Estados Unidos, somente o assinaram.

Os assuntos ambientais estão presentes em todas as editorias. Trigueiro estabelece que em vez de jornalistas ambientais , é mais interessante e imprescindível formar jornalistas que tenham uma visão mais sistêmica sobre omundo.

Ele não descarta o lead como uma ferramenta necessária para promover a tão buscada objetividade no jornalismo. Mas para o jornalista, não se pode perder a perspectiva de enxergar outros aspectos também relevantes de uma pauta. Em parte, até concordo com ele. O "lide" não precisa ser encarado para limitar, restringir e enquadrar a matéria. Muita coisa diferente pode ser feita, e o lide pode até contribuir na estruturação da matéria.

O jornalismo é imediatista, está sempre atrelado à velocidade e ao tempo. Trigueiro reconhece que pela questão da rapidez de dar a notícia, "às vezes a gente não tem tempo de enxergar sistemicamente".

Algo interessante em sua fala, foi que ser jornalista no Brasil é completamente diferente do que ser em qualquer outro lugar do mundo. O Brasil é o país com a maior reserva de água doce do mundo, tem a maior floresta tropical no planeta, preserva o maior patrimônio de biodiversidade, além de ter a maior quantidade de solo fértil do mundo (sem nem levar em conta as áreas protegidas).

Para ele, ser jornalista interessado no meio ambiente no Brasil significa saber resgatar o valor desse tesouro de forma sustentável. Não só isso, entre outras críticas está a carência de discussão na mídia entre os conceitos de crescimento e desenvolvimento, que muitas vezes são empregados na imprensa sem critério e distinção. A sustentabilidade deve ser uma discussão que permeia o debate do desenvolvimento e crescimento do país.

Trigueiro faz uma rápida distinção: o crescimento engloba números, dados, estatísticas (por exemplo, o PIB de um país que não necessariamente expresa de forma qualitativa a situação). Já o desenvolvimento é a qulaidade do número, a compreensão nos seus mais variados aspectos e não apenas econômico.

Vale aqui caracterizar a forma não sustentável de se utilizar dos recursos mundiais do planeta Terra: retirar algo que não seja reposto a tempo. A forma nao sustentável de exploração dos recursos naturais se dá quando ela é superior à capacidade de recomposição, isto é, a capacidade de suporte e de resiliência (recuperação).

Trigueiro apresenta alguns dados do Banco Mundial em que as 25 cidades mais poluídas do mundo, mais de 10 delas são chinesas, entre elas uma é Pequim - a mesma cidade que vai sediar as Olimpíadas de 2008. No caso da China, a cada 2 dias acontece um desastre ambiental - entre chuvas ácidas e a redução do nível do lençol freático que já diminuiu cerca de 60 metros.

No auge de sua discussão, Trigueiro solta uma pérola: "o jornalismo ambiental é subversivo e incomoda os interesses econômicos de muita gente". É verdade.

Aproximando à realidade brasileira: a recente descoberta monumental de reserva de petróleo. Em tempos de aquecimento global, a queima de combustível fóssil vai na contramão de um esforço global na diminuição dos índices de emissão de CO2. O custo ambiental do petróleo é muito grande.

O jornalista apresenta uma tendência futura (mas bem próxima) de tipificar o preço do petróleo de acordo com o custo ambiental. Isto é, os preços de cada produto ou serviço vão variar de acordo com o desgaste ambiental. O consumidor vai passar a ter a necessidade de ser informado quais produtos gastam mais CO2 para que o próprio consumidor/cidadão possa fazer a sua escolha. Ou seja, o preço vai internalizar o custo que o Estado e a sociedade vão ter para produzir certos produtos.

"O que será o mundo daqui a 8 anos?" - se pergunta Trigueiro.

Atualmente, a Petrobrás investe cerca de 1,5% em energia renováveis como - solar, eólica, biomassa, biodiesel, álcool - o que ele considera muito pouco. A empresa deve ter um comprometimento em investir mais em fontes de energia renovável.

E quanto aos jornalistas, Trigueiro também não deixa passar: "somos analfabetos ambientais, ainda não estamos preparados para investigar aquilo que não está no realease". Para ele, é imprescindível questionar e duvidar, o que muitos jornalistas não fazem e aceitam o que está nas propostas de pauta de assessorias de imprensa. É preciso estrapolar o limite da pauta oferecido pelo editor.

Não basta só informar: é preciso que a informação remeta a uma nova atitude. Não vale apenas compartilhar informação, tem que transformar. Trigueiro destaca a urgência de transformação: "e não basta mudar, tem que mudar logo".

É uma questão de consciência: não pela disponibilidade de recursos e sim quanto à gestão desses recursos. Esse é um momento único na humanidade. O jornalista alerta para a emergência da crise ambiental sem precedência. Segundo dados da WWF ( World Wildlife Fund/Fundo Mundial para a Natureza), 20% da humanidade utiliza 80% dos recursos. O planeta Terra está operando em um déficit de 25% de sua capacidade de suporte.

"Nós não somos sustentáveis, o tempo urge, nós precisamos nos reeducar", afirma Trigueiro. Os ecossitemas naturais do planeta não são inesgotáveis, e uma vez atingido, afetado, ele não consegue se restabelecer e voltar ao normal.

"O aquecimento global é um tema complicado de tratar na imprensa. Não importa o que fazemos hoje só vai se percebido em não menos de 100 anos, o resultado será visto por outras pessoas", diz.

Para tratar o tema na imprensa, Trigueiro dá a dica: é preciso utilizar o bom senso e não ser alarmista e indicar possibilidades, formas de reverter o processo, e a mudança deve ser feita já.

"É preciso ter calibragem na hora de tratar o assunto, isso não é pessimismo, é realismo. Vivemos numa cidade ignorando o impacto causado pleo nosso estilo de vida", ele defende um exercício e uma reeducação para a responsabilidade cidadã, principalmente no que se refere ao consumismo - ostentar onde há escassez, a maioria das pessoas não têm nem o básico para sobrevier. Trigueiro é crítico feroz e contrário ao consumismo compulsivo.

Fabíola Ortiz


Veja mais alguns sites:

http://www.wwf.org.br/index.cfm

http://www.mundosustentavel.com.br/

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O meio ambiente.... e eu com isso?!

A questão ambiental e todos os aspectos que envolvem a preservação do meio ambiente, a compreensão do desenvolvimento humano associado à ecologia, a noção de que o crescimento econômico também deve estar intimamente ligado a sustentabilidade ecológica... pois é... tudo isso já não é mais coisa do futuro para as próximas gerações pensarem nisso .

Aquela velha idéia de que não devemos nos "pré-ocupar" de coisas que supostamente deveriamos deixar mais para frente, ou apenas nos ocuparmos de aproveitar, extrair e explorar toda a capacidade que o meio ambiente pode nos prover (principalmente quando falamos em lucratividade), já não existe mais.

A preocupação é real e é agora, não dá para empurrar com a barriga. Hoje o meio ambiente é prioridade se quisermos pensar em desenvolvimento sócio-político-econômico e cultural também.

Uma iniciativa interessante de alunos do Programa de Ensino Tutorial da Escola de Comunicação da UFRJ (PET/ECO) é a Semana Nacional de Comunicação Ambiental*. Mas o que a comunicação tem a ver com o meio ambiente?

Pois é, tem tudo a ver sim.
Se pensarmos em como dar maior visibilidade à questão ambiental em seus mais variados aspectos, já estamos pensando em comunicação.
Se informarmos nos noticiários, pura e simplesmente, um desastre ecológico e um vazamento de óleo, ou queimadas, ou deslizamento, ou enchentes,...., já estamos falando em comunicação.

Se fizermos campanhas de conscientização sobre a coleta seletiva de lixo ou apenas não jogar lixo nas ruas, também estamos falando em comunicação.

Não há como fugir, uma vez que estamos inseridos em um mundo globalizado que caracteriza-se pela socidade conectada em rede e em fluxos de informação. E informação é comunicação. A sociedade informatizada depende de meios de comunicação e redes que permitam tais trocas de informação.

Hoje o Secretário Estadual de Meio Ambiente Carlos Minc, também professor da UFRJ, como convidado para ab
rir junto com outros palestrantes a Semana, defendeu a necessidade de incorporar uma cultura ambiental entre os jovens, que para ele, seriam os "futuros gestores nas tomadas de decisão".

“Hoje a sociedade não admite mais que o custo do desenvolvimento seja destruir as florestas, contaminar os rios, aumentar as emissões de gás aquecendo o clima e derretendo a geleiras. Finalmente caiu a ficha ambiental, nós queremos um desenvolvimento de qualidade”, destacou.

Quando tive a oportunidade de falar rapidamente com uma professora da ECO, quem estava mediando a mesa de debate do primeiro dia do evento, a Cristina Rego Monteiro, também jornalista, ela disse algo bem interessante:

“É fundamental promover um evento como esse numa universidade, nós precisamos ter uma perspectiva de mudança de paradigma na cobertura, não adianta trabalhar com notícias de escândalo e denúncias. A gente tem que ter uma visão quase pedagógica, didática e de conscientização, um jornalismo educativo conscientizador”.

Ela defende
uma mudança na forma de tratar o tema do meio ambiente nos veículos de comunicação. Para ela é preciso ter uma visão integrada da ecologia, pois a questão ambiental deve estar presente em todos os profissionais que trabalham com a comunicação.

Algo que o
aluno de graduação Gustavo Barreto e também bolsista do PET, um dos coordenadores do evento, explica que o objetivo é integrar a perspectiva humana ao meio ambiente e formar novas gerações.

“O que inova nesse evento é o foco na comunicação voltado para a educação ambiental, a idéia é formar novas gerações e não focar apenas nos desastres, na lógica das tragédias, a idéia é ter um olhar propositivo sobre o tema”.

Pois é, concordo.

Talvez hoje a mídia esteja muito voltada a cobrir desastres, é um ciclo vicioso de tragédias, e nunca busca a compreensão da raiz do problema, são apenas causas pontuais e isoladas.


*A Semana de Comunicação Ambiental vai até o dia 8 de novembro e vai discutir questões da atualidade sobre gestão ambiental, a comunicação e a sociedade civil. Vai contar com a presença de ativistas, pesquisadores e profissionais do meio.

Fabíola Ortiz


O site do evento:

http://www.eco.ufrj.br/semanaambiental/


Sites interessantes sobre meio ambiente:

http://www.ambientebrasil.com.br/


http://bioneconomy.blogspot.com/

http://www.oeco.com.br/

Fotos
(google images)










Região serrana - RJ










Ilha da Marambaia - RJ









Cachoeira da Formiga/Jalapão - TO









Jalapão - TO










Fervedouro/Jalapão - TO










Jalapão - TO

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Que reforma urbana?

Segundo dados do Iterj (Instituto de Terras e Cartografia do Rio de Janeiro), o estado do Rio já alcança um déficit habitacional de quase 300 mil moradias. Um dado ainda mais alarmante, é que mais de 1 milhão de pessoas não têm onde morar no Rio.

Esses dados são de uma pesquisa do IBGE que registrou, entre 1991-2000, um aumento em 12 mil residências no déficit de habitação aqui no estado.

Como pensar um desenvolvimento econômico no estado se o desenvolvimento social ainda é muito incipiente e fraco? E a reforma urbana (?) - projeto que deveria prever não só construção de moradias, mas também a regularização fundiária e uma intervenção estratégica da política habitacional.

O projeto de se fazer uma reforma urbana no país está previsto desde o governo do Jango na década de 60 como uma das "Reformas de Base", e ainda em 2007, não temos nenhum projeto consistente... é coisa de tupiniquim mesmo...

Desde 2a feira (29/10), 56 famílias com 28 crianças a tira colo, estão ocupando de forma pacífica o antigo prédio do INSS, na rua Alcindo Guanabara 20 (ao lado da Câmara Municipal) na Cinelândia, centro do Rio. Eles estão ocupando o terceiro andar do edifício, abandonado há mais de 10 anos. Lá, já havia um projeto piloto de abrigar 100 famílias... e para a novidade dos moradores já "prometidos", o INSS está vendendo a preço de mercado o edifício para a Receita Federal.

Essas famílias estão cadastradas e também participam do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM). Pelo que disse Gelsom de Almeida, um dos coordenadores do movimento aqui no estado do Rio, o MNLM foi criado na década de 90 para lutar pela aplicação de políticas públicas de habitação e reforma urbana e está presente em 18 estados brasileiros.

Esse movimento, assim como tantos outros derivados dos sem terra, o MST, estão se proliferando... cabe pensar por que movimentos sociais dos mais variados nomes e "ideologias" estão se formando. Será porque é para lembrar ao Estado de levar em conta "certas categorias" da população brasileira (marginalizadas) na hora de formular políticas públicas?

E quantos movimentos desses não estão filiados a partidos políticos? O Gelsom do MNLM garante que eles não estão, para assim permitir mais autonomia política de atuação... talvez eles sejam um dos poucos ainda não filiados.

Hoje no Brasil, 25 milhões de famílias sofrem com a falta de moradia, seja em cidades ou em áreas rurais. Essa não é uma informação para se jogar fora. Será que a reforma urbana, ou melhor "habitacional" se limita apenas a dar casas para as pessoas morarem?

Sendo assim é muito fácil, aqui na cidade do Rio, por exemplo, é só construir "conjuntos de moradias populares" em lugares inóspitos onde nem ônibus chega, próximos a lixões e abrigar pessoas lá. São lugares hostis porque o Estado não intervém, não chega água, infraestrutura sanitária, linhas de transporte, serviços, escola, posto de saúde, nada...

Será que a reforma urbana não deve vir acompanhada pela presença do Estado em outros aspectos? Estranho pensar que só algumas categorias de pessoas têm direito à cidadania... pois é, aqui no Brasil é assim, nem todo mundo tem direito a ser cidadão...

Fabíola Ortiz


http://www.iterj.rj.gov.br/

http://www.ipea.gov.br/pub/td/td_410.pdf


Galeria de Fotos:
Fonte Flickr.com



































quinta-feira, 25 de outubro de 2007

E mais um dia no Rio de Janeiro...

Fortes chuvas, ruas alagadas, transbordamento de rios, bueiros entupidos, trânsito muito congestionado, acidentes, engavetamentos, queda de encostas, falta de luz, cancelamento de vôos, fechamento de aeroportos... pois é, esse foi o cenário que o Rio viveu hoje: um caos generalizado.
Hoje choveu o equivalente a 45 dias de chuvas normais. Culpa da chuva? pode ser... mas só dela?


A Defesa Civil registrou mais de 200 ocorrências durante todo o dia. Houve falta de luz em muitos bairros da zona sul, norte, oeste e Baixada Fluminense.
JB Online

A chuva não deu trégua, ninguém saiu imune. Não bastasse isso, 5 mil toneladas de terra desabaram de ontem para hoje entre as galerias do túnel Rebouças, uma das principais ligações de bairros da zona norte à sul do Rio. O que são 5 mil toneladas? Foi capaz de quase tapar o buraco do túnel. Incidente?


Logo após técnicos da Secretaria de Obras e da Geo-Rio terem avaliado a situação do morro que fica em cima do túnel, o Cerro-Corá, e terem dito que não haveria mais risco de desabamento... caiu mais um blocão de barro.

Pois é... segundo o secretário de transportes, Arolde de Oliveira, só não foi uma tragédia porque não pôs em risco a vida das pessoas. Como não? E os carros que passaram antes ou na hora do deslizamento? Um amigo meu que atravessou o túnel quase na mesma hora do deslize, ontem à noite, correu o sério risco de ser soterrado.


Hoje o tema foi prato cheio para a mídia. Vários "ao vivo", "fique com a gente", "mais informações a qualquer momento", "não saia daí"... Mas disso tudo vai sobrar alguma coisa: será que na próxima vez que chover tanto quanto hoje, as pessoas vão se lembrar do que aconteceu nesse dia? Não sei, a memória é curta. A mídia também, de certo modo, pode contribuir com o esquecimento.

Essa não é a primeira vez que cai alguma coisa, desaba outra, morre alguém, inunda algum lugar, mata, desaloja... E não será a última.

Vale lembrar também outro episódio: os Estados Unidos só reparam que o aquecimento global existe, quando a tragédia bate à porta deles. Na verdade os pobres sempre arcam com a tragédia, as pessoas só se dão conta quando a elite se vê incomodada, quando o fogo queima a sua mansão.


Será que nós também só caimos na real quando a catástrofe nos atinge?
É a mesma coisa quando dizemos que morreram tantas pessoas num tiroteio com a polícia no morro tal... "ah, mas eram traficantes mesmo".

Imagem do Extra

Fabíola Ortiz

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A Tropa de Elite do BOPE: a violência policial retratada no cinema brasileiro

O filme ‘Tropa de Elite’ que atraiu um público de 180 mil espectadores só no fim de semana de estréia em São Paulo e no Rio de Janeiro, põe em discussão a violência policial tendo como pano de fundo as favelas cariocas, e a crença de que a violência deve ser combatida em igual medida pelo uso da força. O diretor do filme também aborda questões como a descriminalização das drogas – quem estaria financiando o narco-tráfico, seria a classe média?

Cena do filme "Tropa de Elite", imagem retirada do Google Images

Quando fiz o filme do ônibus 174 com o ponto de vista da violência do Sandro Nascimento e sua história de vida, me deu uma idéia: por que não fazer um filme do ponto de vista da violência policial, daqueles policiais que mataram o Sandro”. Foi assim que José Padilha, diretor do filme ‘Tropa de Elite’ que atraiu um público de 180 mil espectadores só no fim de semana de estréia em São Paulo e no Rio de Janeiro, deu início ao debate com alunos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, promovido pelo Fórum de Ciência e Cultura da instituição.

Após a exibição gratuita do filme para os estudantes universitários, nesta última terça feira dia 16, o debate reuniu centenas de alunos no teatro de arena no campus da UFRJ para discutir com o diretor e os três autores do livro ‘Elite da Tropa’ que deu origem ao longa metragem*.

‘Tropa de Elite’que foi escolhido o filme de abertura do Festival do Rio 2007, em setembro, teve seu lançamento nas telas de cinema antecipado para 12 de outubro. O filme que contou com um orçamento de dez milhões e meio de reais, uma das produções mais caras do cinema brasileiro, é sucesso de público e crítica.

O Nascimento e o BOPE

O filme é narrado por um policial do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar. Para Padilha, o personagem capitão Nascimento acredita profundamente que a violência deve ser combatida com a própria violência. “O policial que integra o BOPE é um caso extremo de uma polícia que acredita na violência como solução”.

José Padilha explica que sua opção por mostrar o lado policial é que no Brasil não havia nenhum longa metragem que abordasse esse ponto de vista – a exemplo do ‘Carandiru’, ‘Cidade de Deus’, ‘174’ que apresentam outras realidades.

Luis Eduardo Soares, um dos autores do livro, considera que as polícias, em especial do Rio de Janeiro, são as mais violentas do mundo. E apontou como dados, a título de comparação, que nos EUA, a polícia é tida como a mais brutal e mata 200 pessoas por ano.

Segundo ele, dados de 2003 apontam que houve mais de mil mortes no estado do Rio com “sinais claros de execução pela polícia”. O sociólogo enfatiza os dados mais recentes de 2006 e 2007: ano passado foram 1.600 mortes, esse ano já chegamos a 1.400. Em cinco anos, mais de quatro mil casos de pessoas assassinadas.

E destaca: “É inaceitável conviver com essas estimativas”. Com o filme e o livro, Luis Eduardo Soares incita a mobilização da opinião pública para discutir a atuação da polícia e pôr em questão esses dados.

Rebatendo às críticas, o diretor afirma que nem o Sandro, nem o Nascimento são heróis, considerar algum deles como herói é “simplificar o entendimento do filme”. Para ele, é preciso ser capaz de olhar e entender o discurso policial assim como o do Sandro retratado no documentário ‘174’.

“A minha idéia era fazer um filme que as pessoas debatessem”, disse. Padilha considera que o BOPE é um batalhão treinado para a guerra de caça aos traficantes. O BOPE é retratado no filme ambientado em 1997, na época 120 homens compunham a corporação, hoje o batalhão já tem mais de 400. “Uma cidade que precisa ter esse tipo de polícia especial, já temos um sério problema. Não deveria existir uma polícia como essa, não resta a menor dúvida que ela precisa ser mais humana e respeitar a lei”.

Luis Eduardo Soares destaca que a sociedade tende a generalizar os policiais como se fossem os principais agressores, “eles também são vítimas”. E acrescenta, “o BOPE é como se fosse uma seita, há um processo de institucionalização da violência, o capitão Nascimento é fruto da construção de uma identidade selvagem”.

De acordo com o sociólogo, há dois grandes problemas na polícia: a corrupção e brutalidade. E sobre o livro, ressalta que “há um processo histórico da política de segurança pública que está padronizando as atitudes rígidas, os policiais são também vítimas, antes mesmo de serem apontados como algozes”.

Rodrigo Pimentel concorda e afirma que: “A polícia reproduz as violências, os preconceitos e a corrupção da sociedade carioca. A nossa sociedade é violenta, é corrupta e aceita o falso herói como o Nascimento. A polícia acaba fazendo uma réplica da violência desses valores sociais”.

José Padilha enfatiza que o filme não tem como pretensão demarcar uma posição político-partidária. E rebate a mais críticas: “No 174 me perguntaram se eu era radical de esquerda, nesse [Tropa de Elite] se eu sou radical de direita; isso seria politicamente inviável”, ironiza. De acordo com o diretor, há uma noção equivocada de que a arte deve sempre propor soluções e abordar toda a realidade – “isso não é verdade”.

A descriminalização das Drogas

“O filme mostra que o usuário recreativo de drogas – aquele que não é viciado e pode escolher comprar ou não – sabe de quem está comprando [se referindo aos grupos armados nas favelas]”. Para ele, o filme coloca a questão se aquele que consome drogas está financiando ou não grupos armados com o dinheiro pago pela droga.

Já Luis Eduardo Soares é mais contundente: “é claro que as drogas financiam as armas”.

O filme aponta para uma sociedade que coloca o consumidor numa situação complicada: “ou ele compra de grupos armados e acaba financiando a violência urbana, ou não consome”.

Esse debate suscita uma polêmica ainda maior: a descriminalização das drogas. Padilha se pergunta por que a droga tem que ser criminalizada e a bebida não.

Sobre isso, responde: “Sou a favor da descriminalização das drogas, as pessoas devem escolher o que elas fazem, se eu quero comprar maconha o que o Estado tem a ver com isso?”

Porém, o diretor de ‘Tropa de Elite’ questiona se com a descriminalização a violência urbana diminuiria. “Tenho minhas dúvidas, toda vez que se combate o tráfico de drogas aumentam os seqüestros e homicídios”.

Pirataria

Mas não só de críticas e de bilheteria que o ‘Tropa de Elite’ virou um fenômeno. Ele também bateu o recorde da pirataria. Segundo pesquisa do Datafolha, só em São Paulo cerca de um milhão e meio de pessoas já assistiu ao DVD pirata. No dia 11 de outubro, foram apreendidos em todo o Brasil mais de 1 milhão de CDs e DVDs pirateados, o ‘Tropa de Elite’ representou 10% de toda a apreensão.

A cópia foi vendida nos camelôs dois meses antes da estréia do filme e ainda não era a sua versão final. Além do Rio e São Paulo, os DVDs piratas podiam ser comprados nas grandes cidades como o Distrito Federal , Belo Horizonte e Salvador. Na internet, mais de 70 mil sites oferecem o filme para download.

Sobre o fenômeno que popularizou o filme, Padilha não nega que tenha ganhado mais projeção, mas mesmo assim, considera a pirataria crime. “A pirataria envolve sonegação fiscal, não paga impostos, nem reconhece direitos trabalhistas ou dos consumidores. Eu sou a favor de um cinema mais barato, mas piratear não é a solução”.

Em resposta a uma sugestão da platéia de fazer um filme sobre os verdadeiros “chefões do tráfico”, Padilha garante que o próximo filme será sobre o Congresso Nacional. O roteiro está sendo escrito junto com o Gabriel Pensador.

*Do sociólogo Luis Eduardo Soares, André Batista e o ex-capitão do BOPE que atuou 6 anos na corporação, Rodrigo Pimentel.

Fabíola Ortiz

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Dar vida ao Blog


Para inaugurar o meu primeiro blog - confesso que relutei muito em criar um espaço como esse, mas agora me rendi a necessidade de expôr minhas idéias livremente transpondo as barreiras físicas que a internet nos possibilita.

Jornalista em formação, pretendo com esse espaço dar voz a artigos meus sobre os mais diversos temas, sejam eles sobre política, cultura, violência, atualidades, reflexões, críticas... não quero me restringir a nenhum assunto.

Considero o blog "FOS Repórter", cujo nome faz alusão ao meu próprio, ou pelo menos a minha pretensão de tornar-me repórter, se ainda não sou uma, estou construindo meu caminho.

Na verdade, tomei a decisão de criar um blog no auge do meu ímpeto de insatisfação e sentimento de impotência para "desabafar", assim posso considerar (talvez essa não seja a melhor palavra para caracterizar o meu sentimento no momento exato em que resolvi dar vida a um blog) . Mas, confesso que diante de uma impotência como jovem jornalista ao ter me deparado com situações que me marcaram, vão servir tanto como aprendizagem e ensinamento para uma carreira em construção.

Fabíola Ortiz

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Pesado

Hoje foi um dia pesado, considero um dos dias mais difíceis que tive desde que entrei para a equipe de jornalismo em uma rádio AM no Rio de Janeiro. Não faz muito tempo que estou lá, mas sinto que já é um bom começo para vivenciar uma parte do jornalismo. São muitos os desafios, as diferentes reportagens que temos que fazer e a preocupação que devemos ter para adaptá-las à linguagem radiofônica. Mais para frente posso contar mais da experiência de estar lá.

Voltando ao assunto que norteia 0 meu relato, ou desabafo, hoje a tarde foi pesada.
Nunca tinha ido ao Instituto Médico Legal (IML) no Rio de Janeiro. Um lugar fantasmagórico que fede a formol, cheira a morte e dor.
Pois é, hoje foi a minha estréia no IML. Segundo um colega de reportagem, hoje eu "tirei a minha virgindade" do IML. A tarde foi longa, saí da redação esgotada e sem ter a sensação de ter cumprido a missão.

São muitas as surpresas que nos esperam a cada dia que chegamos à redação. Para mim, pelo menos, me sinto mais aliviada quando percebo que o esforço tenha valido a pena. Hoje até valeu, pela experiência. Muito aprendi. Voltei para casa sem forças, e com um sentimento de impotência. Aquele jornalismo de transformação social que acredito todo repórter deve carregar consigo, hoje me vi discrente disso. Às vezes não é possível mudar as coisas. Às vezes não é possível ser neutro, não se envolver, não se comover.

Assim que chego à redação sou mandada diretamente para o IML para registrar o processo do reconhecimento de familiares que perderam filhos, sobrinhos, primos, maridos em um confronto com a polícia civil na favela da Coréia, em Senador Camará na zona norte do Rio. A operação policial, como tantas outras diariamente ganham as páginas principais nos jornais do Rio. Dessa vez não foi diferente.

O confronto ontem deixou um saldo com número de mortos ainda duvidoso - ainda não se sabe se foram 12 ou 16 mortos. A assessoria da polícia civil apenas afirmava 12 entre eles um policial e uma criança de 4 anos vítima do tiroteio.

Como abordar os familiares de jovens mortos, que a princípio segundo a polícia, teriam envolvimento com o tráfico de drogas? Eu não estava preparada. E como estar preparado para uma situação dessas?

Muitos parentes estavam visivelmente abalados com um mixto de indignação, ódio, tristeza e sentimento de perda. Como falar com elas, como se aproximar em um momento tão particular? Não foi fácil. As reações são as mais diversas e imprevisíveis. E nessa história toda, qual o meu sentimento de impotência frente a uma realidade de violência. Não entro no mérito se eram parentes de traficantes ou não, eram seres humanos com mães. E o que fica disso tudo: "muito ódio, muita raiva" (segundo uma das familiares) e descontentamento, principalmente com a polícia e junte-se ainda a imprensa que está sempre na hora certa/errada para retratar a desgraça dos outros.

Eu não estava ali para fazer sensacionalismo, eu queria saber o lado humano da coisa. E as famílias que ficam, como é viver em um lugar onde o Estado não chega e o que impera é a lei do mais forte. Queria saber dos sentimentos das pessoas que perderam entes queridos, mas sem invadir a privacidade do outro. "Ele era tão jovenzinho, tinha 20 aninhos, como é que fizeram isso com ele... / Eu sou camelô, tenho que trabalhar, ele tinha que me ajudar com o sustento / Não quero falar sobre isso, eu não falo com imprensa, se quiser saber mais coisa vai falar com a polícia que matou eles... / Que direitos humanos o quê, e o que fazem com a gente é direito humano?...", alguns dos breves relatos que consegui de pessoas diferentes.

Pois é, dessa vez não consegui me distanciar. De tão comovida, nem fazer um relato emocionado fui capaz. A saída mesmo, pelo menos para tentar manter um certo equilíbrio num caos de total desordem de pensamentos, resolvi fazer mais uma daquelas matérias burocráticascomo como se não houvesse envolvimento com a situação.

"Muitos familiares compareceram, nesta 5a feira, no Instituto Médico Legal Afrânio Peixoto, no centro do Rio para fazer o reconhecimento dos corpos. 7 deles já foram liberados, 5 ainda estavam no processo de identificação.... O laudo técnico será concluído em 15 dias. Muitos familiares manifestaram indignação com a atuação da polícia. Os enterros estão sendo nos cemitários... Do Rio de Janeiro, F.O."

Não foi nem será apenas a única ida ao IML. Estou ciente. Da próxima vai ser melhor.


Fabíola Ortiz