segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dia da Biodiversidade marca pedidos por ação política urgente

Enquanto o mundo se prepara para celebrar a diversidade da vida na Terra, a Rede WWF e outras ONGs estão conclamando os governos a fazer mudanças fundamentais no planejamento econômico para evitar o colapso do sistema de manutenção da vida no planeta.

No sábado, o mundo celebrará o Dia Internacional da Biodiversidade, que foi proclamado pelas Nações Unidas em 1993 com o objetivo de “ampliar a compreensão e a consciência acerca das questões de biodiversidade.”

A biodiversidade e a saúde dos ecossistemas naturais são o fundamento do bem-estar humano e da economia porque oferecem um leque de benefícios, ou “serviços”, como ar e água limpos, proteção contra desastres naturais, medicamentos e alimentos. Os especialistas estimam o valor econômico global da biodiversidade como nada menos que US$ 33 trilhões ao ano.

“Os governos raramente levam em consideração os benefícios econômicos e sociais da natureza em suas políticas e atividades”, afirmou Rolf Hogan, diretor de Biodiversidade da Rede WWF. “Isso leva à destruição dos ecossistemas naturais e compromete o nosso futuro. A situação está se tornando uma crise”.

Paralelamente a isso, os governos do mundo não cumpriram a promessa que assumiram em 2002, junto à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), de reduzir consideravelmente o índice de perda da biodiversidade até 2010, o Ano Internacional da Biodiversidade.

Estudos recentes, inclusive o Panorama Global da Biodiversidade 3 (Global Biodiversity Outlook 3, relatório preparado pela CDB), mostram que a continuidade da perda maciça da biodiversidade é uma probabilidade cada vez maior. De acordo com os estudos, estamos nos aproximando de diversos “pontos de colapso”, em que os ecossistemas entrarão em estados menos produtivos, dos quais poderá ser impossível se recuperar.

“O relatório da CDB mostra que, infelizmente, a conservação dos ecossistemas e das espécies, o uso sustentável dos recursos naturais e a repartição dos benefícios da biodiversidade ainda não fazem parte dos principais critérios considerados por tomadores de decisão, sejam de governos ou empresas”, afirma o superintendente de conservação do WWF-Brasil, Cláudio Maretti.

ONGs pedem metas mais audaciosas

Em uma declaração feita em reunião científica da Convenção sobre Diversidade Biológica no início desta semana, 24 organizações não governamentais (inclusive o WWF-Brasil) – representando a sociedade civil, a comunidade de conservação e povos indígenas – disseram aos governos que o mundo falhou porque “as atuais políticas econômicas promovem o consumo exacerbado dos recursos naturais por alguns países e segmentos da sociedade. Isso está levando à destruição dos habitats, o que debilita os direitos e os meios de vida de milhões de pessoas que dependem dos ecossistemas para sobreviver”.

“Estamos num momento decisivo. Uma mudança fundamental é necessária e urgente. A sociedade precisa de uma nova visão que associe políticas socioeconômicas e ambientais”.

“O Dia Internacional da Biodiversidade deve servir de lembrete para os Chefes de Estado ouvirem esse apelo das ONGs e assumirem compromissos concretos ao se reunirem na sessão especial sobre biodiversidade da Assembleia Geral das Nações Unidas em setembro”, informou Hogan.

“Não podemos esperar que os ministros do meio ambiente levantem essa bandeira sozinhos. A conservação e o uso sustentável da biodiversidade precisam passar dos círculos políticos para uma posição central no mundo para que possamos evitar uma perda catastrófica da biodiversidade”, completou.

A declaração das ONGs também faz diversas recomendações, inclusive a de que o verdadeiro valor dos serviços da biodiversidade e dos ecossistemas seja integrado ao planejamento e ações econômicas para o combate à mudança do clima, e que os direitos dos povos indígenas sejam reconhecidos.

“No Brasil, queremos saber se o governo do presidente Lula, que se encerra este ano, vai deixar como herança para os brasileiros um país que continua degradando seus ambientes naturais, ou um país que lidera o mundo em direção à sustentabilidade”, questiona Maretti. Para o superintendente do WWF-Brasil, o presidente Lula deve assumir papel de liderança nas discussões sobre biodiversidade que ocorrerão na Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro.

Para mais informações sobre o Ano Internacional da Biodiversidade, as negociações da CDB e o relatório Panorama Global da Biodiversidade 3, visite www.wwf.org.br/biodiversidade.

*-*-*-*-

O WWF-Brasil é uma organização não governamental brasileira dedicada à conservação da natureza com os objetivos de harmonizar a atividade humana com a conservação da biodiversidade e de promover o uso racional dos recursos naturais em benefício dos cidadãos de hoje e das futuras gerações. O WWF-Brasil, criado em 1996 e sediado em Brasília, desenvolve projetos em todo o país e integra a Rede WWF, a maior rede independente de conservação da natureza, com atuação em mais de 100 países e o apoio de cerca de 5 milhões de pessoas, incluindo associados e voluntários.

sábado, 27 de março de 2010

~Desafio é unir o urbano dividido face ao crescimento descontrolado das cidades - ONU

Face a um crescimento descontrolado das grandes cidades, o desafio que se impõe hoje é unir o urbano dividido e garantir o direito à cidade aos diferentes segmentos sociais, defende representante do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT).


“Unir o urbano dividido não é uma contradição, é uma realidade”, disse mexicano Eduardo Lopez-Moreno, um dos diretores do Observatório Urbano Global do escritório da ONU, à margem do 5º Fórum Urbano Mundial.

A busca por um crescimento mais harmónico não é só um desafio, mas uma necessidade, garante o arquiteto.


Isto é, “buscar formas de transferir benefícios e oportunidades àqueles que não têm”.


O direito a cidade não é um direito novo, mas sim uma visão espacial da realização dos direitos que foram historicamente conseguidos, explica.


“O espaço da cidade é o lugar onde esses direitos se podem materializar”. Contudo, em países mais pobres, os direitos, as oportunidades e o acesso aos recursos são muito limitados.


“A cidade que deveria ser um espaço aberto, se converte numa fortaleza. Isso acaba por separar os ricos e os pobres”.


A tendência é piorar, adverte Lopez-Moreno. “Quando as divisões sociais e econômicas são muito visíveis com a divisão física do espaço urbano, as possibilidades de distúrbios sociais serão cada vez maiores”, alerta.


A redução desta segregação urbana mundial ainda carece de muitos esforços. Na última década, o número absoluto de moradores de favelas cresceu de 776,7 milhões para 827,6 milhões podendo atingir um total de 889 milhões em 2020, alerta a ONU.


Só na África Subsaariana, quase 200 milhões de pessoas vivem em favelas, a América Latina não fica muito atrás com uma população de 110 milhões de favelados.


O exemplo brasileiro é paradigmático, salienta Lopez-Moreno. Apesar de as cidades brasileiras serem as mais desiguais no mundo, atrás apenas das cidades da África do Sul, o Brasil deu “um passo grande”.


Nos últimos 10 anos, as condições de vida de quase 11 milhões de brasileiros em favelas melhoraram.

A experiência brasileira é uma referência, dado que em apenas cinco anos, mais de nove milhões de pessoas deixaram de viver em assentamentos informais.


A “chave do sucesso”, garante Lopez-Moreno, é a mistura de programas de transferência de renda, de acesso à moradia e a articulação dos três níveis de gestão.


“Essa conjunção de ações é o que vai trazer o sucesso. Quando o governo local se articula com o central. Esta coordenação tem tudo para dar certo”.


Criado em 2002, o Fórum Urbano Mundial já se realizou em cidades em todos os continentes, esta é a primeira vez que decorre na América Latina.


Após 10 anos de realização, o maior congresso sobre urbanismo para debater crescimento e impactos provocados pela urbanização bateu o recorde de inscritos, com cerca de 20 mil participantes de 200 países.

5º Fórum Urbano Mundial das Nações Unidas

O 5º Fórum Urbano Mundial das Nações Unidas terminou ontem (26) Rio de Janeiro e reafirmou os desafios para uma urbanização sustentável com o direito de todo ser humano a viver com qualidade de vida nas cidades.


“A hora de agir é agora”, esta foi a mensagem final deixada pela diretora executiva do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), a tanzaniana Anna Tibaijuka.


“O tempo não está do nosso lado. A tarefa diante de nós é imensa, é um trabalho que deveríamos ter feito ontem”, advertiu a representante do Escritório da ONU ao referir os problemas enfrentados pelas cidades em todo o mundo.


Nas mais de três horas da cerimónia de encerramento do maior fórum sobre urbanismo no mundo, foi lançada a Campanha Urbana Global com propostas para garantir o desenvolvimento urbano sustentável.


Coordenada pela ONU-Habitat, a campanha, que leva o logo elaborado por um designer português, é uma oportunidade para desenvolver soluções urbanas e ferramentas políticas de atuação para reduzir as desigualdades nos espaços urbanos.


Em complemento à fala de Tibaijuka, o ministro brasileiro das Cidades e anfitrião do evento, Márcio Fortes, destacou que a campanha irá refletir as ações da maioria dos países que enfrentam o problema dramático de assentamentos, transporte, conflitos sociais e reforma agrária.


“Não podemos agir sozinhos, precisamos de parcerias, de atuarmos juntos, seja de forma bilaterial ou multilateral”, reforçou o ministro brasileiro.


“As desigualdades urbanas vão além da dimensão de renda. O direito à cidade deve se constituir como um direito coletivo”, salientou Márcio Fortes.


Ao longo de cinco dias de debates sobre o crescimento e impactos provocados pela urbanização, o Fórum Urbano reuniu 13.700 participantes de 150 países.


O encontro, realizado pela primeira vez na América Latina, discutiu o crescimento urbano desordenado em plena área degradada na zona portuária do Rio de Janeiro.


Os participantes puderam sentir na pele os problemas das grandes cidades em termos de infraestruturas e segregação social.


No século 20 que foi marcado pela exclusão urbana, a busca por um crescimento mais harmonioso não é só um desafio, mas uma necessidade, este foi o consenso entre as centenas mesas de debates levadas à cabo esta semana.


Segundo a ONU, pouco mais de metade da humanidade está hoje concentrada em médias e grandes cidades e estima-se que chegará a dois terços nos próximos 50 anos.


Atualmente, metade da população mundial (3,5 mil milhões de pessoas), mora em áreas urbanas, e cerca de mil milhões de pessoas vivem em condições precárias nas principais cidades do mundo.


Na última década, o número absoluto de moradores de favelas cresceu de 776,7 milhões para 827,6 milhões.

A população residente em favelas alcançará a 890 milhões de pessoas até 2020.


A 6ª edição do Fórum Urbano Mundial será realizada em Bahrain, no Médio Oriente, em 2012.


quinta-feira, 25 de março de 2010

JPPS-2010/1 . 7a. EDIÇÃO . Curso de Extensão com Certificado sobre este tema

Gratuito
inscrições on line até 31 de março:

http://sites.google.com/site/cursojpps/inscricoes-jpps-2010-1-comunicacao-e-sustentabilidade


Encontros todas às segundas, de 05.04 a 12.07 das 9h30m às 13h

Por uma nova década da cultura de paz a cada ação

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Comunicação e Sustentabilidade
a Arqueologia dos Conceitos e
a Questão da Mente Sustentável


PROF. EVANDRO VIEIRA OURIQUES, D.Sc.


“Tenho tido uma experiência de muita intensidade, alegria, emoção;
(...) eu espero que recolham esta frágil flor que estou oferecendo e façam, com ela, um jardim.”

Marcio Tavares d’Amara
l

Este curso é dedicado ao Prof. Marcio d’Amaral


15 encontros
para mudar o modelo mental
(Por gentileza leia todo este material de divulgação, inclusive o artigo ao final, que precede a bibliografia obrigatória do Curso, antes de solicitar a sua inscrição via on line em http://sites.google.com/site/cursojpps/inscricoes-jpps-2010-1-comunicacao-e-sustentabilidade Grato por seu precioso interesse!)

No ano em que se encerra a Década Internacional pela Cultura de Paz e Não-violência para as Crianças do Mundo, 2001–2010/ONU-UNESCO, dedicamos nosso Curso JPPS-Jornalismo de Políticas Públicas Sociais, com maior ênfase ainda, às atitudes que sustentam Políticas Públicas Sociais, Redes e Empreendedorismo de fato Democráticos e, assim, capazes de aprofundar a Cultura de Paz e Não-violência, decisiva, a partir do exercício da responsabilidade sobre o Território Mental, para o desenho sustentável do presente e da herança que deixaremos para as futuras gerações.


Fazemos isto em um novo formato do JPPS, centrado na importância de avançar a complexidade da Palavra, a complexidade do Pensamento, este que desenha o que somos, e o que vivemos, que nos faz sermos humanos; ou até mesmo mais do que “humanos”, no sentido de talvez um dia nos chamarmos por um conceito limpo da insustentável cultura patriarcal.

Metodologia do curso
Profunda imersão em leituras críticas;
Práticas transformativas; e
Talk-shows com convidados especiais:

Alfredo Sirkis; Eraldo Carneiro (Petrobras e CEBDS); Fernando Gabeira; Flávia Ribeiro (CEBDS); Ladislau Dowbor (NEF.PUC.SP); Marina Silva; Nádia Rebouças (Rebouças & Associados); Ricardo Voltolini (Ideia Socioambiental); Rosa Alegria (NETCCON e NEF.PUC.SP); Sandra Korman (NETCCON e PUC.Rio) e Veet Vivarta (ANDI).
(alguns poucos nomes estão ainda em confirmação)

Eixos de trabalho


1. SUSTENTABILIDADE E DEMOCRACIA
As vantagens do não-dualismo e da transdisciplinaridade


A Democracia, os Direitos e os Deveres Humanos, o Direito à Comunicação e o Desafio de Comunicar, a Liberdade de Expressão, a Responsabilidade Socioambiental, os Empreendimentos Sustentáveis, enfim o Estado do Bem Estar Social, são experiências que dependem diretamente de uma nova, complexa e colaborativa maneira de entender estes temas, a Vida e o Mundo.

2. INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO
Escolher entre duas culturas para chegar às pessoas


Como superar a doença de entender a Comunicação de maneira utilitária, pontual e fantasiosa, reduzida à produção de peças, processos e efeitos, quando a urgência é pensar a Comunicação de maneira ampla: de pensá-la na dimensão dela ser a linguagem do biológico e do social. E, assim, dela ser a linguagem da Sustentabilidade e da Democracia; portanto, o fundamento estratégico decisivo da gestão.

3. DISCURSO E AÇÃO SUSTENTÁVEIS
A questão do domínio dos conceitos e da ação resultante


Como somos cultura, somos o que pensamos, afetamos, somos afetados e percebemos. Somos o que falamos, expressões e linguagens; somos nossos estados mentais, nossa Palavra como Corpo-Vivo, nosso Corpo como Palavra-Viva. É preciso portanto dominar o processo de formação da vontade para que a ação, sempre densificação de um estado mental, seja a expressão de uma vontade sustentável.

4. EDUCAÇÃO E MENTE SUSTENTÁVEL
O ponto cego do TBL e a questão do Quarto Bottom Line


A urgência do Quarto Bottom Line, a Gestão da Mente Sustentável, que avança e dá eficácia efetiva aos propósitos do Triple Bottom Line. Clean up your mind-act not your image! (Limpe a sua mente-ação, não a sua imagem!). Uma metodologia político-pedagógica para a mudança do design mental, a única maneira de criar de maneira colaborativa, compartilhar e multiplicar livre-mente aprendizados de fato sustentáveis e democráticos.

Inscrições on line até 31 de março. Início do curso em 05 de abril
http://sites.google.com/site/cursojpps/inscricoes-jpps-2010-1-comunicacao-e-sustentabilidade

Local de Realização
Auditório da Central de Produção Multimídia-CPM, Escola de Comunicação da UFRJ
Campus UFRJ da Praia Vermelha - Rio de Janeiro – RJ

Realização
NETCCON-Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência.ECO.UFRJ,
em convênio com a ANDI-Agência de Notícias dos Direitos da Infância.

Parcerias
Setor de Extensão da ECO.UFRJ
SESC-Rio - Redes Comunitárias Núcleo de Estudos do Futuro-PUC.SP

Apostila e material do curso
Sessenta reais, pagos no primeiro dia de aula

Mais informações
21.9205.1696 e evouriques@terra.com.br

Artigo de contextualização, a ser lido antes de solicitar a inscrição

Gestão e Mente Sustentável:
uma nova perspectiva sobre Política, Comunicação e Sustentabilidade
Prof. Evandro Vieira Ouriques

Dentre todas as fontes de referência que movem ou podem mover com Justiça e Dignidade as Políticas Públicas, as Redes e o Empreendedorismo, a Sustentabilidade é a mais importante de todas.

Ela é mais importante ainda, por exemplo, que a cultura digital e as redes, pois apenas ela pode orientar o verdadeiro sentido democrático das conexões, das alianças, das conquistas tecnológicas, das intervenções nos territórios. E, assim, transformar o atual e imenso acúmulo de crises, de dimensão tectônica, em extraordinária oportunidade de um futuro que faça sentido: um futuro fundado em valores comunais, os que garantem a coesão social. Como todo futuro, ele é sempre construído agora, pelo poder do pensamento claro, complexo e focado.

E, mais: apenas a Sustentabilidade pode trazer à tona o verdadeiro sentido da própria Comunicação, muito distinto da fogueira de vaidades atual.

Explico. Por partes.

1. Por que a Sustentabilidade ocupa este papel central?

Por que o processo de conceituação do que seja a Cultura, e dentro desta a Filosofia e a História, acabou por definí-la como a ruptura do continnuum do processo natural. Ou seja, como a “outra” da Natureza: aquela que não é a Natureza. Neste conceito portanto temos a oposição dualista entre o que passamos a chamar de Cultura face ao que então passamos a chamar de Natureza.

O resultado desta ruptura colhemos principalmente durante o século XX, apesar de já na Roma antiga, no séc. VII a.C., por exemplo, existir legislação para controlar os perigos do trânsito de carroças, bem como o imenso barulho que elas faziam nas ruas à noite não deixando sobretudo os pobres dormirem.

Pelo menos desde 1972 temos as provas científicas irrefutáveis deste erro epistemológico, e desde então resistimos a rever nossos conceitos sobre a Vida e sobre o Mundo, aí incluídos os conceitos de Cultura e Natureza.

Resistimos a mudar de modelo mental (fluxo de pensamentos, afetos e percepções); a abandonar esta mente insustentável, preferindo insistir, na maior parte dos casos, em uma atitude greenwash; ou seja, em uma atitude verde apenas como efeito de real, alimentando tal opção epistemológica, fatal para o nosso presente e para o futuro das novas gerações: separar Cultura e Natureza foi interromper a conexão primeira, a rede primeira, que é a interdependência sistêmica e complexa entre o biológico e o cultural.

Estava e está no conceito Cultura instalado o divórcio, a falta de Comunicação, esta forma talvez de amor líquido, em verdade uma mistura de ressentimento e melancólica admiração da Cultura pela Natureza, facilmente perceptível na maneira pontual e utilitarista com a qual este re-encontro se dá nos cobiçados finais de semana populares ou ultra-elitizados, que vão dos super spas e resorts aos piqueniques-farofa na praia, ou ao churrasco à beira da piscina de plástico.

Ou, então, nas commodities, por exemplo, petróleo, gás, ouro e os outros metais presentes em toda a cadeia industrial e nos produtos que enchem os supermercados e os shoppings, e que são retiradas in natura diretamente da Natureza e que continuam a mover o mundo que destroí assim, digamos, sua própria mãe, sua própria origem, a própria fonte que a alimenta.

Sim, há algo de profunda insanidade neste modelo mental, nesta Cultura. Para destacadas autoridades da clínica social da psicanálise, a característica dominante da economia psíquica pós-moderna é exatamente a iminência do colapso psicótico.

2. Por que a Sustentabilidade permite repensar de forma ampla o que seja a Comunicação?

A Sustentabilidade obriga a repensar a Comunicação pois comprova que a Comunicação é a linguagem do que chamamos de Natureza, que se expressa através da lógica das redes biológicas, cognitivas, da ancestralidade e, por isto, também das redes culturais e sociais.

Trata-se, sem dúvida de uma imensa vaidade, daí tanta ocorrência de celebridades e narcisismos nas redes sociais, estar brevemente sobre um Planeta no qual surgimos apenas no último segundo (se compactamos a História de 14 bilhões de anos em um ano) e que flutua em meio a um Cosmos de tal maneira gigantesco, e insistir-se em dar ordem ao mundo, insistir-se em recusar comunicar Cultura e Natureza, recusar-se a comunicar poder e generosidade.

O Desafio de Pensar
Tratar portanto da Comunicação e da Sustentabilidade é entender que Segurança Ambiental, Justiça Social e Equidade Econômica, metas do Triple Bottom Line, só se dão de fato pela construção e gestão de uma Mente Sustentável, que possa garantir que a palavra dita se torne ato concretizado mediante o foco da vontade neste sentido.

É quando o indíviduo, rede, movimento, organização e instituição monitora e vigia seu próprio Território Mental (o fluxo de pensamentos, afetos e percepções, dentre elas a intuição) que o poder de criar Políticas Públicas, Redes e Emprendimentos se manifesta de maneira sustentável.

Para isto é preciso sustar a compulsão do produtivismo; e meditar; construir deliberadamente um pensamento respiratório; agir na mais poderosa das ações: a que fazemos sobre os conceitos, pois somos, como disse, o que pensamos, o que afetamos, o que nos afeta, o que percebemos. Somos responsáveis pelo que fazemos. O que vivemos é o resultado de nossas aspirações.

Nesta sétima edição do JPPS vamos praticar minuciosamente, através de longas e detalhadas leituras e reflexões, a arqueologia dos conceitos Comunicação e Sustentabilidade, como quem delicada e decidida-mente percorre o corpo amado, seja ele sútil ou mais denso, celebrando cada milímetro, cada respiração, cada pulsação, por vezes suave-mente, por vezes intensa-mente.

Para que as vidas, as carreiras, os empreendimentos, as alianças, as famílias, as redes, os movimentos, as corporações, os partidos, as organizações de todo o tipo, as intervenções nos territórios, ajam na solução do que hoje enfrentamos, é preciso livrar-se da captura pela idéia dualista de que existiria um “sistema” contra o qual nada se poderia fazer e que aprisionaria a Liberdade e a Justiça, através de uma opressão vinda de fora para dentro ou exercida “entre” os indivíduos.

Na realidade, o que aprisiona é o modelo mental que se tem e do qual não se livra simplesmente por obra e graça de se estar conectado à web e dispondo de banda larga e das ferramentas mais elaboradas de rede, pois as cadeias mentais é que são a causa final, e na maior parte dos casos, inconsciente, pois gravada no aparente “recato” da “vida privada”, na intimidade do próprio pensamento, no conjunto dos afetos e percepções que se tem sobre o mundo; conjunto este que se mantém intacto pelo tabu de não se falar sobre ele de forma alguma, divorciando-o da política e da gestão, como se dele não dependesse o futuro do empreendimento, o futuro da Nação.

Por isto é preciso treinar a mente para a ação transformadora no mundo, diante da qual não cabem as respostas prontas entregues por intenso, concentrado e monocórdico delivery mediático, educacional, familiar e social.

Há que se superar o desafio de comunicar para que se possa gozar plenamente do Direito à Comunicação. Esta tarefa demanda imenso exercício continuado de vontade, de disposição para mudar, de humildade, de escuta, de paciência, de compaixão.

Vamos então neste semestre ler muito e pausada-mente, perguntar, investigar e conversar, experimentar, como quem re-começa ou começa a pensar:

. É a “Natureza” “cruel”, de fato? É a “Natureza” violenta? Qual a “natureza” da violência psíquica e social, ou, melhor, como se constrói a insustentável cultura da violência, baseada na unidimensionalidade da remuneração e dos efeitos de real criados pelo acúmulo de poder e de capital, e na socialização das perdas, movidos pela inveja, pela vingança e pela indiferença, em uma manifestação do que os alemães chamam de schadenfreude; ou seja, o sentimento de alegria pelo sofrimento ou infelicidade dos outros?

. A vida é mesmo uma guerra? Os animais são violentos ou em verdade o amor é que é a base do biológico e do social? De onde vem a vontade das Políticas Públicas Sociais e da sustentabilidade? Do poder e do interesse auto-referenciados? Há portanto uma outra e distinta fonte de referência para o ato comunicativo, o ato do afeto, o ato da política?

. Qual a diferença entre violência, ira e indignação? Quem, o quê e onde estaria o verdadeiro “inimigo”?

. A Paz se multiplica por “contaminação” e por “meio viral”? De onde vem esta ânsia de agir e agir sem pensar, que atribui à tecnologia ou às redes (como se estas estivessem passando a existir agora...), portanto atribuindo ao que está fora, ao outro, as esperanças de Liberdade, Justiça e de Paz?

. Por que a ridicularização das utopias, quando entender o mundo apenas como um supermercado e um shopping center gigantesco, tecnologizado e simbólica e geográfica-mente infinito, custe o que custar, é que gera a insustentabilidade do divórcio entre palavra e ato; este fim-das-utopias, gerador da irresponsabilidade cidadã sobre a própria ação no mundo; este gerador da traição e do abuso, sob as múltiplas formas da inveja perpétua, fonte das celebridades e dos narcisismos?

Por que a insustentabilidade social que se quis superar no século XX, através do coletivismo, aprofundou-se na totalização pelo reconhecimento pelo capital, neste século XXI marcado, até agora, pelo individualismo, pelo mal-estar, pelos fundamentalismos de todas as ordens, pela devoção tecnológica, pela repetição da luta insana pelo poder mesmo nas esquerdas, a qual -quando muito- parece sobrar a resistência criativa, talvez não-criadora, aos crescentes dispositivos de vigilância?

. Por que a recusa a trabalhar intensa-mente para tornar o pensamento mais e mais complexo, e apenas assim, de fato, ter um pensamento livre, por que cristalino, descondicionado, por que claro, que permita a vida em sociedade?

. Por que a recusa a ter uma re-visão profunda e crítica sobre os conceitos que se usa, sobre o fluxo dos estados mentais?

. Enfim a dispor de tempo para compreender minuciosa-mente o discurso que cada um coloca no ar, como editor de si mesmo e, assim, poder de fato re-inventar-se, de fato inovar-se e poder então concretizar mais atitudes green e não apenas mais entulho não-reciclável greenwash?

. De ser, como mostrou cristalina-mente Mahatma Gandhi, aquilo que se quer ver no mundo, entendendo a indissociabilidade entre o psíquico, o social, o espiritual e o político, defendida também por tantos brilhantes pensadores ocidentais?

Por que então o atual elogio à loucura, na forma da simplificação do pensamento, da redução do pensamento ao nada que é a ação repetitiva e suicida, produzida pela pasteurização do pensamento?

A única maneira de se fazer a globalização é de fato esta? Na qual em nome de uma suposta eficácia tecnológica que (ao contrário de trazer mais democracia como foi prometido, tem é gerado na maior parte dos casos mais concentração e mais vigilância) instaurou a redução da complexidade e da multiplicidade, das diversidades do mundo, das diferenças das pessoas, dos povos, das culturas, brutal e anestesiada-mente ameaçadas?

. Por que ameaçar o pensamento, se apenas ele é que pode encontrar a coesão social na multiplicidade, como as teias se mantêm equilibradas, de encontrar uma coesão que não seja a dos totalitarismos, seja sob a forma do fascismo político, do fundamentalismo religioso, do fundamentalismo tecnológico.

O Desafio de Comunicar
De fato, é o pensamento que funda e move, e que é a integralidade da experiência de se estar vivo, na condição que patriarcal-mente, e portanto insustentavel-mente, ainda chamamos de “humano”.

É por isto que a Comunicação hoje ainda está muito na dimensão operacional: na produção de efeitos, na obtenção de capital de influência, quando o que precisa avançar é a política enquanto conceito, o negócio enquanto conceito, a rede enquanto conceito, a Comunicação enquanto conceito.

É assim que é urgente avançar a superação de pensar a Comunicação de maneira fragmentada, atenta apenas, como disse, aos processos.

É urgente construir, compreender, praticar e gerir uma Mente Sustentável. É preciso investir na profunda arqueologia dos conceitos que constituem o pensamento, os afetos e as percepções. A Mente Sustentável engloba a multidimensionalidade dos processos cognitivos, inclusive, claro, a intuição, pois apenas uma mente clara e focada permite termos Inovação verdadeira: a Comunicação, a Política, as Redes, os Empreeendimentos sustentáveis e assim democráticos.

Quando somos prisioneiros de uma cultura só podemos nos libertar através de uma outra cultura, sabemos disto. E isto apenas se faz pelo esforço de um pensamento novo e complexo, que abrigue, sem pré-conceitos, o melhor dos conhecimentos de todas as culturas que o ser humano já construiu.

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Prof. Evandro Vieira Ouriques
Professor da Escola de Comunicação da UFRJ há 31 anos e coordenador do NETCCON-Núcleo de Estudos Transdiciplinares de Comunicação e Consciência é o criador da metodologia Gestão da Mente Sustentável, o Quarto Bottom Line.

Escritor e consultor, é especialista em mudança de atitude, focado em Comunicação e Educação para as Redes, as Políticas Públicas e a Sustentabilidade, atuando tanto em redes, movimentos e organizações, como o movimento pela Democratização da Comunicação no Brasil, os Fóruns de Mídia Livre, o DEGASE, a Rebouças & Associados, a Petrobras, a Natura, o ETHOS e a ABERJE, quanto através de atendimentos e coaching individuais.

Transdisciplinar desde 1984, é cientista político, jornalista, designer, artista multimídia, gestor cultural, curador e conservador de obras de arte e terapeuta de base analítica.

Trabalhou 21 anos no Ministério da Cultura, na Fundação Nacional de Arte e no Museu Nacional Nacional de Belas Artes, quatro anos em Diálogo Inter-religioso e três com a Estratégia Cultural do Yoga no Brasil, tendo em vista seus estudos sobre sistemas ancestrais de comunicação e cura.

Membro da INTERCOM, do Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, da Associação Internacional de Estudos Ibero-Eslavos e do Instituto Cultural Brasil-Galícia, é diretor de Comunicação e Cultura do Núcleo de Estudos do Futuro da PUC.SP.

Mantem convênio com a UNESCO, o Coletivo INTERVOZES e o LaPCom-Unb para a elaboração de Indicadores do Direito à Comunicação no Brasil. Autor e organizador de dezenas de publicações entre as quais se destaca o livro Diálogo entre as Civilizações: a Experiência Brasileira, publicado pela ONU e a UNESCO em 2003.


Bibliografia Obrigatória do Curso

OURIQUES, Evandro Vieira (2009). Comunicação, Palavra e Políticas Públicas: a Importância do Conceito Envolvimento para a Construção da Cidadania Sustentável. Revista Z Cultural. Programa Avançado de Cultura Contemporânea-PACC.FCC.UFRJ. Ano 5 nº 02. Rio de Janeiro. ISNN 1980-9921

_________________________(2008). Gestão da Mente Sustentável®, o Extended Bottom Line: o Desenvolvimento Socioambiental como Questão da Consciência e da Comunicação. In GUEVARA, Arnoldo José de Hoyos, et al. (orgs.). Consciência e desenvolvimento sustentável nas organizações. Rio de Janeiro: Editora Campus Elsevier, São Paulo. pp. 195-203. ISBN-10: 85-352-3281-8

________________________ (2009). Território Mental: o Nó Górdio da Democracia. Revista Democracia Viva, nº 42, maio de 2009. IBASE, Rio de Janeiro. pp 76-81

Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (2009). Guia de Comunicação e Sustentabilidade. Realização da Câmara Temática de Comunicação e Educação do CEBDS (Eraldo Carneiro. Coordenação do Projeto: Flávia Ribeiro (Coord. de Comunicação do CEBDS) e Pablo Barros. Rio de Janeiro.


Bibliografia Sugerida para o Aprofundamento

ALEGRIA, Rosa. Da matriz ao self: o desafio evolucionário da mídia e das organizações. In GUEVARA, Arnoldo José de Hoyos, et al. (orgs.). Consciência e desenvolvimento sustentável nas organizações. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2008. pp. 195-203.

AMARAL, Marcio Tavares d’. Comunicação e Diferença: uma filosofia de guerra para uso dos homens comuns. Editora da UFRJ, 2004.

BIRMAN, Joel. Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

BOHM, David. Diálogo: comunicação e redes de convivência. São Paulo: Palas Athena.

CANCLINI, Néstor García. Diferentes, desiguais e desconectados. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2004.

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________________________(2009). Política, Espiritualidade e Dádiva: A urgência de refazer o pensamento e a ação social. Revista Comunicações ISER, nº 63. Edição Especial- MIR: Memórias, Ações e Perspectivas do Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro. Instituto de Estudos da Religião-ISER. Rio de Janeiro. pp 144-160. http://www.iser.org.br/arquivos/comunicacoes_do_iser_63.pdf

________________________(2010). O Conceito Envolvimento e o Caráter Político das Práticas Linguísticas. in Práticas socioculturais e discurso: debates transdisciplinares. Núcleo de Estudos de Linguagem e Sociedade da UnB e Labcom, Universidade de Leiria, Portugal. No prelo.

________________________(2010). O Silêncio Ativo da Escuta como Possibilidade de Resistência e Inovação através do Diálogo. Anuário 2010 da Associação Internacional de Estudos Ibero-Eslavos, Lisboa, Portugal. No prelo.

________________________(2004). Sobre a ação desinteressada em Gandhi e a ética na midia. http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=291ASP021
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(2010). Sustentabilidade, Democracia e Sinceridade: ideias gêmeas, no útero da Mente Sustentável. Revista Fórum de Direito Urbano e Ambiental-FDUA, São Paulo, ano 9, nº 49. Janeiro-Fevereiro de 2010. ISSN 1676-6962

PRIGOGINE, Ilya e STENGERS, Isabelle. A nova aliança. Editora Universidade de Brasília, 1984.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A globalização e as ciências sociais. São Paulo: Cortez Editora, 2005.


Recomendamos o site da ANDI sobre as Mudanças Climáticas: http://www.mudancasclimaticas.andi.org.br/


JPPS NO 2º SEMESTRE DE 2010:

Mais Políticas Públicas de Paz e Não-violência, prosseguindo o trabalho do JPPS.NETCCON de mapear questões e contribuições decisivas para a Cultura de Paz e Não-violência.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

COP15

08/12/2009 - 11h49

Mudança climática causará 1 bilhão de migrações, diz relatório

Por Laura MacInnis

A mudança climática deve levar até 1 bilhão de pessoas a deixarem suas casas nas próximas quatro décadas, disse um estudo divulgado nesta terça-feira pela Organização Internacional para a Migração (OIM).

O relatório, lançado no segundo dia da conferência climática da ONU em Copenhague, estima que 20 milhões de pessoas já ficaram desabrigadas na semana passada por causa de desastres naturais, que devem se agravar devido à mudança climática.

Reuters
Fêmea de urso polar aguarda formação de gelo para migrar no norte do Canadá; além de animais, pessoas também terão que deixar suas casas por causa do clima



deixar seus países para tentar a vida em lugares mais ricos. O que ocorre, na verdade, é que eles se deslocam para cidades já superpopuladas, aumentando a pressão sobre países pobres.

"Além da luta imediata diante do desastre, a migração pode não ser uma opção para os grupos mais pobres e vulneráveis", disse o texto.

"Em geral, os países esperam gerir internamente a migração ambiental, à exceção de pequenos Estados insulares, nos quais em alguns casos (o aquecimento) já levou ao desaparecimento de algumas ilhas sob a água, forçando a migração internacional."

As estimativas sobre a migração decorrente de fenômenos climáticos variam de "25 milhões a 1 bilhão de pessoas... nos próximos 40 anos". O texto, no entanto, informa que a cifra mais baixa parece já estar ultrapassada.

O número de desastres naturais mais do que dobrou nos últimos 20 anos, e a OIM disse que a desertificação, a poluição da água e outros problemas tendem a tornar áreas cada vez maiores do planeta inabitáveis conforme o efeito estufa se alastrar.

"Uma maior mudança climática, com temperaturas globais previsivelmente subindo entre 2C e 5C até o final deste século, pode ter um grande impacto sobre o movimento das pessoas", disse o relatório, patrocinado pela Fundação Rockefeller.

O estudo aponta Afeganistão, Bangladesh, a maior parte da América Central e partes da África Ocidental e do Sudeste Asiático como as áreas mais propensas às grandes migrações por fatores climáticos.

Nesta semana, o alto comissário da ONU para refugiados, Antonio Guterres, alertou que metade dos refugiados do mundo já vive em cidades onde há aumento de tensões xenófobas, como Cabul, Bogotá, Abidjan e Damasco.

Começa a 15ª Conferência das Partes (COP-15) sobre Mudanças Climáticas em Copenhague

WWF


Líderes de todo o mundo estão a partir de ontem (7) diante de uma oportunidade única em Copenhague (Dinamarca), para atuar em prol de um acordo internacional justo sobre o clima, no intuito de ajudar a salvar o planeta de uma ameaça devastadora, o aquecimento global. E o WWF-Brasil também marca sua presença nessa cúpula mundial.


A 15ª Conferência das Partes (COP-15) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima é considerada o encontro mais importante do mundo desde o final da Segunda Guerra Mundial. Nele, os governos tentarão chegar a um acordo sobre o que precisa ser feito em relação ao clima do planeta, que está mudando rapidamente.


A COP-15 será realizada até dia 18 de dezembro. Durante um período de 12 dias, será preciso alcançar um Acordo do Clima que seja justo e com força de lei, ou seja, cujo cumprimento seja juridicamente obrigatório: um Acordo Global. Um esforço comum que enfrente, de forma substancial, as causas por trás das mudanças climáticas e que reduza os impactos potencialmente devastadores dessas mudanças.


Integrante da Rede WWF, que instigou uma grande cruzada para reunir especialistas, informações e argumentos necessários para obter os resultados que se busca em termos de políticas globais para o clima, o WWF-Brasil acompanha ao vivo, por intermédio de sua equipe, as discussões na Dinamarca. Durante todo esse ano, a instituição contribuiu para conscientizar as pessoas sobre os impactos e as consequências das mudanças climáticas, além de apoiar diversas iniciativas para ajudar os cidadãos a chamar a atenção dos líderes mundiais para o que está em jogo nesse encontro internacional.


"Estamos diante de uma oportunidade única para mostrar que política e ciência podem andar juntas. A despeito das dificuldades e dos imensos desafios ao multilateralismo, esperamos que as negociações possam indicar o caminho para uma economia global de baixo carbono, mais harmoniosa com o meio ambiente e justa às necessidades das populações", enfatiza Denise Hamú, Secretária Geral do WWF-Brasil.


Expectativas e Compromissos

Mais de cem chefes de Estado já confirmaram sua presença na COP15. Brasil, China e Índia trouxeram para a mesa de negociação um elemento novo e importante ao anunciarem metas para limitar suas emissões de gases de efeito estufa. Isto deu um impulso importante e os colocou os países em condição de cobrar das nações mais ricas sua responsabilidade,

“A presença de tantos líderes mundiais cria em Copenhague o ambiente necessário para decisões firmes. Todos os países precisam estar engajados na definição de um acordo ambicioso e juridicamente vinculante, ou seja, que permita a cobrança legal pelos compromissos assumidos”, afirma desde Copenhague Carlos Alberto de Mattos Scaramuzza, superintendente de Conservação do WWF-Brasil. “Mas ainda há países que não querem tomar estas decisões agora. Esperamos, então, que o presidente Lula exija dos países ricos que assumam compromissos firmes de corte em suas emissões e de apoio financeiro e tecnológico aos países em desenvolvimento. E que as nações desenvolvidas efetivamente contribuam para chegarmos a um acordo. É uma excelente oportunidade para o Presidente mostrar a liderança internacional que a sociedade brasileira vem cobrando há tempos”, conclui o superintendente.

O Brasil levará a Copenhague uma das maiores delegações da Conferência, incluindo os negociadores do Itamaraty, Ministério de Ciência e Tecnologia, Ministério do Meio Ambiente, além de observadores de vários outros ministérios, de governos estaduais, municipais, empresas, organizações não governamentais e movimentos sociais.

“Os brasileiros tem muito interesse pelo tema das mudanças climáticas. A maioria de nosso povo se preocupa com o assunto, sabe que somos vulneráveis e espera ações firmes do governo brasileiro”, reforça Scaramuzza. “É fundamental que os governantes sensibilizem-se definitivamente com o tema das mudanças climáticas e incorporem a sustentabilidade ambiental e as ações para redução de emissões de gases de efeito estufa em cada plano e ação de governo”, acrescenta. “Zerar o desmatamento, investir em energias renováveis e reduzir nossas emissões em todos os setores não é apenas importante para o clima do Planeta. Trata-se de uma obrigação com futuro de nosso país e com as gerações futuras”, conclui o superintendente de Conservação.

Veja o que a Rede WWF e o WWF-Brasil defendem:

  • Reduzir as emissões mundiais de carbono em 80% até 2050
  • Facilitar a transição para uma economia de baixo carbono
  • Fazer com que as economias emergentes e outros países em desenvolvimento tenham acesso a tecnologias limpas
  • Apoiar a adaptação às mudanças climáticas nos países em desenvolvimento
  • Apoiar a meta de desmatamento zero da Rede WWF

Sobre o WWF-Brasil

O WWF-Brasil é uma organização não governamental brasileira dedicada à conservação da natureza com os objetivos de harmonizar a atividade humana com a conservação da biodiversidade e de promover o uso racional dos recursos naturais em benefício dos cidadãos de hoje e das futuras gerações. O WWF-Brasil, criado em 1996 e sediado em Brasília, desenvolve projetos em todo o país e integra a Rede WWF, a maior rede independente de conservação da natureza, com atuação em mais de 100 países e o apoio de cerca de 5 milhões de pessoas, incluindo associados e voluntários.

‘Bolsa Floresta’ beneficia 6,8 mil famílias na Amazônia brasileira

Amazonas, dezembro de 2009

Modelo do Programa, criado pelo Governo do Amazonas e implementado pela FAS, será mostrado durante evento da COP 15

O Programa Bolsa Floresta, que beneficia atualmente mais de 6,8 mil famílias no estado do Amazonas, é o primeiro projeto do Brasil implementado para recompensar as populações tradicionais pela manutenção dos serviços ambientais prestados pelas florestas tropicais. A iniciativa pioneira será apresentada durante evento paralelo da 15ª Conferência das Partes (COP 15), em Copenhage (Dinamarca), no dia 15.

Serviços ambientais são benefícios prestados pelas florestas em pé, como a estabilidade do clima, manutenção da chuva, armazenamento de carbono nas árvores e a conservação da biodiversidade. O Programa Bolsa Floresta recompensa, por meio de quatro componentes (Renda, Social, Familiar e Associação), as famílias que moram nas Unidades de Conservação (UC´s) estaduais do Amazonas e se comprometem com o desmatamento zero.

“Consideramos que o Bolsa Floresta é um importante mecanismo para envolver a população das unidades de conservação nas atividades de combate ao desmatamento”, afirmou o presidente da FAS, Luiz Fernando Furlan.

Criado em 2007, pelo Governo do Estado do Amazonas, o Bolsa Floresta foi instituído por intermédio da Lei de Mudanças Climáticas, Conservação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas. Atualmente, o programa é implementado pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS), instituição não governamental e sem fins lucrativos, em 14 Unidades de Conservação do Estado, em uma área de mais de 10 milhões de hectares.

“Nosso Estado tem uma imensa área verde, que precisa ser compreendida como uma vantagem, como um passivo. Nós compreendemos isso e transformamos o que era um problema em solução”, declarou o governador Eduardo Braga.

Nesse contexto, a FAS foi criada em dezembro de 2007, e iniciou, formalmente, suas atividades em março de 2008. Para tornar o Bolsa Floresta uma realidade, a instituição recebeu inicialmente doações do Governo do Amazonas e do Banco Bradesco (R$ 20 milhões de cada). A Coca Cola também doou R$ 20 milhões, no início de 2009. Os recursos foram aplicados no fundo permanente, e apenas os rendimentos são investidos, assim os programas da FAS serão sustentáveis financeiramente a longo prazo.

“Os recursos são aplicados naquilo que consideramos mais estratégico para a Amazônia: fazer a floresta valer mais em pé do que derrubada. Porque ninguém desmata por ser burro ou ignorante, as pessoas desmatam por uma racionalidade, porque querem melhorar de vida”, afirma o diretor geral da FAS, Virgílio Viana.

Bolsa Floresta tem quatro componentes

Virgílio Viana ressalta que é necessário fazer com que a floresta se torne cada vez mais valiosa para as pessoas que nela vivem. Para isso, Viana destaca a importância do componente ‘Bolsa Floresta Renda’, através do qual são investidos em média R$ 140 mil por ano em cada UC, em iniciativas que promovam a inserção das populações locais nas cadeias de produtos florestais sustentáveis como óleos, castanhas, frutas, mel e etc.

Um bom exemplo desse incentivo foi alcançado na cadeia produtiva da castanha da Amazônia. Após a realização de oficinas de boas práticas no manejo, construção de armazéns e compra de secador foi possível elevar o valor do produto em cerca de 60%.

Outro componente é o Bolsa Floresta Social, destinado a melhoria da qualidade de vida das comunidades com investimentos locais em educação, saúde, comunicação e transporte. Os investimentos do BFS também equivalem, em média, a R$ 140 mil por Unidade de Conservação ao ano.

Um terceiro componente é o Bolsa Floresta Associação, destinado às associações dos moradores das Unidades de Conservação para fortalecer a organização e o controle social do Programa. Os investimentos do BFA totalizam, em média, R$ 2,4 mil por mês para a associação de moradores de cada Unidade de Conservação.

O quarto componente, o Bolsa Floresta Familiar, é uma recompensa mensal de R$ 50, paga às famílias que têm o compromisso de utilizar racionalmente os recursos naturais e se comprometem com o desmatamento zero.

Até outubro deste ano, mais de 6,8 mil famílias já foram beneficiadas pelo programa Bolsa Floresta, totalizando mais de 30 mil pessoas.

“As florestas do Amazonas prestam um bem ao meio ambiente funcionando como um grande refrigerador da Terra. E a preservação dessas florestas acontece graças a presença de homens e mulheres que habitam essas matas. Com o Bolsa Floresta, será arrecadada verba a ser repassada para essas pessoas a fim de que elas tenham melhor qualidade de vida”, declarou o governador Eduardo Braga, durante a criação do Programa, em 2007.


SOBRE A FAS

A FAS é uma instituição público-privada, sem fins lucrativos, não governamental e sem vínculos político-partidários. A Fundação foi criada no dia 20 de dezembro de 2007, por meio de uma parceria entre o Governo do Estado do Amazonas e o Banco Bradesco, conforme estatuto previamente aprovado pelo Ministério Público Estadual. Em fevereiro de 2009, a Coca Cola Brasil também passou a ser mantenedora. A missão da FAS é promover o envolvimento sustentável, a conservação ambiental e a melhoria da qualidade de vida das comunidades residentes nas Unidades de Conservação Estaduais do Estado do Amazonas, em uma área de mais de 10 milhões de hectares, por meio da valorização dos serviços e produtos ambientais. A FAS tem como prioridade implementar o Programa Bolsa Floresta (PBF), que é o primeiro projeto do Brasil certificado internacionalmente para recompensar as populações tradicionais e indígenas pela manutenção dos serviços ambientais prestados pelas florestas. A contabilidade da FAS é feita pela Deloitte, empresa independente especializada em controle contábil, e auditada pela PricewaterhouseCoopers-Brasil, uma das empresas de auditoria mais respeitadas do mundo. Para mais informações, por favor, visite nosso website: www.fas-amazonas.org.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

JPPS

Jornalismo de Políticas Públicas Sociais, uma realização NETCCON.UFRJ, ANDI e SESC-Rio
Segunda, 23.11.2009, das 9h30m às 13h-Entrada Gratuita!
Auditório da CPM-ECO.UFRJ, Campus da Praia Vermelha, ao lado da piscina


Como fazer para as Redes Sociais acontecerem: um desafio para os “tecelões” da Democracia

Palestra de Augusto de Franco


“Embora a chamada ciência política ainda não tenha se dado conta da existência desse nexo conotativo entre rede social e democracia, a democratização está co-implicada no aumento da distribuição das redes sociais (e não na aposta no padrão organizativo centralizado ou multicentralizado da maioria das instituições políticas, públicas e privadas, como os partidos e os chamamos movimentos sociais, as corporações, os sindicatos, as associações ou outras formas tradicionais de arrebanhamento), o que significa enfocar e valorizar o cidadão desorganizado e conectado que compõe o imenso contingente da sociedade civil.”

Na próxima segunda, dia 23, das 9h30m às 13h, o JPPS, o curso de extensão de Jornalismo de Políticas Públicas Sociais oferecido pelo NETCCON-Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência.ECO.UFRJ, em convênio com a ANDI, e em parceria de realização com o SESC-Rio e seu projeto Redes Comunitárias, tem a alegria de receber para uma conversa Augusto de Franco, um dos maiores especialistas no Brasil na relação entre Redes Sociais e Democracia. Mais informações pelo e-mail
evouriques@terra.com.br e pelo cel. 21.9205.1696.

“Para a democracia não se trata de sonhar com coisas ideais, irrealizáveis, e sim de mudar a forma como nos comportamos política e administrativamente em termos orgânicos. É bom repetir: trata-se de mudar a matriz de projetos, programas e ações governamentais e não-governamentais em todos os níveis. Tudo ou quase tudo que organizamos atualmente a partir do padrão-mainframe, pode ser reorganizado segundo um padrão-network. Quem faz netweaving faz, pois, democracia. Afinal, é necessário reconhecer que tinha razão o pioneiro das redes, Robert Muller, quando escreveu há mais de 20 anos: “conforme caminhamos para o terceiro milênio, talvez a participação em networks se torne a nova democracia, um novo elemento importante no sistema de governança, um novo modo de vida nas complexas e miraculosas condições globais do nosso estranho e maravilhoso planeta vivo, girando e circulando no universo prodigioso em uma encruzilhada de infinidade e eternidade.

“Os netweavers são os "tecelões" (para aproveitar uma expressão de Platão, no diálogo “O Político”, que poderia ter sido feliz se não se referisse ao homem régio, possuidor da ciência régia da política) e os animadores de redes voluntariamente construídas. Na verdade, eles constroem interfaces para "conversar" com a "rede-mãe". Os netweavers não são necessariamente os estudiosos das redes, os especialistas em Social Network Analysis ou os que pesquisam ou constroem conhecimento organizado sobre a morfologia e a dinâmica da sociedade-rede. Os netweavers, em geral, são políticos, não sociólogos. E políticos no sentido prático do termo, quer dizer, articuladores políticos, empreendedores políticos e não cientistas ou analistas políticos.”

Augusto de Franco nasceu em 1950, no Rio de Janeiro. Foi membro do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária, juntamente com Ruth Cardoso e Miguel Darcy e coordenador da AED -Agência de Educação para o Desenvolvimento. Elaborou várias tecnologias de desenvolvimento, como o DLIS -Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável, a Governança Solidária Local e o Pacto pela Democracia Local. É consultor da FIEP para a Rede de Participação Política do Empresariado, escritor, desenvolvedor de Nan Dai e netweaversda Escola-de-Redes. Publicou 16 livros sobre desenvolvimento, redes sociais e democracia, dentre os quais destacam-se “Capital Social”, “A Revolução do Local” e “Alfabetização Democrática”.

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Terceiro capítulo da Versão Completa do artigo "5 Desafios para Reinventar a Política
do ponto de vista da sustentabilidade"

ARTICULAR E ANIMAR REDES DISTRIBUÍDAS DE PESSOAS
Augusto de Franco

Com exceção da compulsória obediência às leis democraticamente aprovadas, qualquer tipo de centralismo, ou seja, de exigência incondicional de obediência à vontade do chefe ou de um comando colegiado, mesmo que seja à vontade de uma instância eleita, introduz um mecanismo autocrático, ainda quando se refira a questões decididas por ampla maioria. Decisões democráticas devem ser acatadas por aqueles que concordam com elas ou que, mesmo discordando do seu conteúdo ou da sua forma, admitem, entretanto, a necessidade de acatá-las em função de valores e objetivos que estimam estar em jogo, cabendo ao processo democrático ensejar a possibilidade de convencimento ou de geração de decisões as mais consensuais possíveis. Assim, nenhuma organização política de adesão voluntária que imponha, por exemplo, fidelidade aos seus membros mediante sanção ou ameaça do uso de sanção pode ser democrática, uma vez que fidelidade, na política como em qualquer outro campo da atividade humana, só é efetiva se for conquistada e consentida, jamais imposta. Via de regra o que está em jogo aqui não é o fortalecimento da democracia, mas o fortalecimento do poder (autocrático) dos chefes.

A centralização (como topologia da rede social), entretanto, vai muito além do centralismo (como procedimento político). A democratização é uma horizontalização – no sentido topológico de distribuição – das relações, enquanto que a centralização (tanto a monocentralização, quanto a descentralização, que na verdade é uma multicentralização) é uma autocratização. Em outras palavras, há uma relação intrínseca entre a forma (social) de conexão e o modo (político) de regulação de conflitos.

Embora a chamada ciência política ainda não tenha se dado conta da existência desse nexo conotativo entre rede social e democracia, a democratização está co-implicada no aumento da distribuição das redes sociais (e não na aposta no padrão organizativo centralizado ou multicentralizado da maioria das instituições políticas, públicas e privadas, como os partidos e os chamamos movimentos sociais, as corporações, os sindicatos, as associações ou outras formas tradicionais de arrebanhamento), o que significa enfocar e valorizar o cidadão desorganizado e conectado que compõe o imenso contingente da sociedade civil.

Não há como garantir que uma rede articulada voluntariamente manifestará os mesmos fenômenos que são próprios da rede social que existe em qualquer sociedade independentemente de nossos esforços organizativos (sim, o que recentemente vem sendo chamado de ‘sociedade-rede’ – e. g., Guéhenno, 1993; Castells, 1996 – se refere a qualquer sociedade, pois o que varia é a topologia e a conectividade, não o fato de ser sociedade-rede já que toda sociedade humana o é). As evidências, no entanto, mostram que, quanto mais distribuídas forem as redes que voluntariamente articulamos, mais elas conseguem se sintonizar ou se comunicar com essa rede social que existe desde que existam conexões entre pessoas, independentemente de nossos esforços organizativos (e que poderíamos chamar, como recurso explicativo, de “rede-mãe”).

As evidências mostram também que mais chances teremos de reproduzir, em redes voluntariamente construídas, os fenômenos que se manifestam na “rede-mãe” se essas redes que articulamos forem redes de pessoas (P2P ou peer-to-peer). Isto é, instituições hierárquicas conectadas entre si podem até tentar se articular em rede, mas dificilmente constituirão uma rede capaz de espelhar a “rede-mãe” – quer dizer, uma rede distribuída (P2P) – configurando-se quase sempre como estruturas conectivas com topologia descentralizada. O motivo é quase óbvio: instituições hierárquicas tendem a hierarquizar as redes de que fazem parte, que, assim, deixam de ser redes para se transformar em frentes de entidades ou em coligações de organizações tradicionais e, às vezes, em holdings.

Para a democracia não se trata de sonhar com coisas ideais, irrealizáveis, e sim de mudar a forma como nos comportamos política e administrativamente em termos orgânicos. É bom repetir: trata-se de mudar a matriz de projetos, programas e ações governamentais e não-governamentais em todos os níveis. Tudo ou quase tudo que organizamos atualmente a partir do padrão-mainframe, pode ser reorganizado segundo um padrão-network.

Quem faz netweaving faz, pois, democracia. Afinal, é necessário reconhecer que tinha razão o pioneiro das redes, Robert Muller, quando escreveu há mais de 20 anos: “conforme caminhamos para o terceiro milênio, talvez a participação em networks se torne a nova democracia, um novo elemento importante no sistema de governança, um novo modo de vida nas complexas e miraculosas condições globais do nosso estranho e maravilhoso planeta vivo, girando e circulando no universo prodigioso em uma encruzilhada de infinidade e eternidade”.

Os netweavers são os "tecelões" (para aproveitar uma expressão de Platão, no diálogo “O Político”, que poderia ter sido feliz se não se referisse ao homem régio, possuidor da ciência régia da política) e os animadores de redes voluntariamente construídas. Na verdade, eles constroem interfaces para "conversar" com a "rede-mãe". Os netweavers não são necessariamente os estudiosos das redes, os especialistas em Social Network Analysis ou os que pesquisam ou constroem conhecimento organizado sobre a morfologia e a dinâmica da sociedade-rede. Os netweavers, em geral, são políticos, não sociólogos. E políticos no sentido prático do termo, quer dizer, articuladores políticos, empreendedores políticos e não cientistas ou analistas políticos.

Nos sistemas representativos atuais os políticos, entretanto, não são netweavers e sim, exatamente, o contrário disso: eles hierarquizam o tecido social, verticalizam as relações, introduzem centralizações, obstruem os caminhos, destroem conexões, derrubam pontes (ou fecham os atalhos que ligam um cluster a outros clusters, separando uma região da rede de outras regiões), excluem nodos; enfim, introduzem toda sorte de anisotropias no espaço-tempo dos fluxos. Fazem tudo isso porque o tipo de poder com o qual lidam – o poder, em suma, de mandar alguém fazer alguma coisa contra a sua vontade – é sempre o poder de obstruir, separar e excluir. E é o poder de introduzir intermediações ampliando o comprimento da corrente, dilatando a extensão característica de caminho da rede social ou aumentando os seus graus de separação (ou seja, diminuindo a conectividade). Não é por outro motivo que os políticos tradicionais funcionam, via de regra, como despachantes de recursos públicos, privatizando continuamente capital social. Pode-se dizer que, nesse sentido, os políticos tradicionais são os anti-netweavers, na medida em que contribuem para tornar a rede social menos distribuída e mais centralizada ou descentralizada (isto é, multicentralizada).

Também não é a toa que todas as organizações políticas – mesmo no interior de regimes formalmente democráticos – têm topologia descentralizada (quer dizer, mais multicentralizada do que distribuída). Essa também é uma maneira de descrever, pelo avesso, o papel dos netweavers.

É claro que a "culpa" por esse comportamento "desenredante" não é dos políticos tradicionais individualmente. Eles são "produzidos" pelo próprio sistema político na medida em que esse sistema não está suficientemente democratizado. Em outras palavras, quanto mais democratizado estiver o sistema político mais o agente político atuará como um netweaver; e vice-versa.

Para articular e animar uma rede distribuída (netweaving) você precisa apenas conectar pessoas em torno de um propósito ou de uma causa. Por exemplo, se a sua causa for o desenvolvimento de uma localidade, você precisa apenas conectar todos os participantes de programas de desenvolvimento, governamentais ou não-governamentais, que existam na localidade. Mas a rede não deve se restringir a tais pessoas; pelo contrário: (no caso, do desenvolvimento comunitário) ela deve ser ampliada com todos aqueles que quiserem colaborar com o trabalho. Muita atenção, porém: trata-se de uma rede de pessoas, não de entidades, instituições ou organizações.

(Se você quiser ter acesso a uma metodologia simples de articulação e animação de redes – netweaving – aplicável à redes de desenvolvimento comunitário, clique no link:
http://augustodefranco.locaweb.com.br/publicacoes_comments.php?id=103_0_4_0_C ).

Demos aqui o exemplo de uma rede de desenvolvimento comunitário. Mas tudo isso vale também para redes voluntárias de participação política (como, por exemplo, a Rede de Participação Política do Empresariado, uma experiência interessante que está sendo desenvolvida no Brasil a partir de 2006 com o apoio da Federação das Indústrias do Estado do Paraná).

As redes de participação política podem, aliás, cumprir um papel importantíssimo na reinvenção da política, em especial em países como o Brasil, onde – ao contrário do que ocorre em outros países da Europa e da América – os partidos ainda detêm o monopólio legal do fazer político. Para assumir um cargo executivo ou legislativo no nosso sistema representativo, uma pessoa deve se filiar a um partido. E, ao fazer isso, um ator isolado certamente não terá forças para contrarrestar a tendência burocrática dominante no interior dos partidos, nem terá condições de quebrar o caciquismo vigente, que transformou os partidos em verdadeiros domínios feudais dos chefes políticos.

É muito difícil transpor tal obstáculo uma vez que as regras que concentram poder no topo da pirâmide organizativa dos partidos estão amparadas por uma legislação antidemocrática (que não será mudada por qualquer reforma política feita pelos interessados em mantê-la). Assim, é praticamente impossível mudar o comportamento partidário por meio da entrada, mesmo em massa, de novos filiados nos partidos que aí estão, a menos que tais filiados estejam suficientemente organizados e capacitados para tanto. E quem fará isso?

Bom, aqui também começamos a tangenciar uma possível solução. Se quisermos potencializar uma vertente de mudança da velha política de baixo para cima é necessário articular programas mais amplos de reforma da política que conectem milhares de cidadãos em torno de uma plataforma básica de ética na política, de defesa da democracia e de promoção do desenvolvimento.

Mas tudo indica que não adianta fazer isso criando um novo partido. Diante das regras, dos procedimentos e dos padrões organizativos hoje vigentes, um novo partido logo sucumbirá à lógica dos velhos partidos, deixando-se contaminar pelo ambiente deletério reinante. É necessário, portanto, fomentar novas formas organizativas, necessariamente segundo um padrão de rede e não hierárquico-burocrático, capazes de inspirar comportamentos mais éticos, mais democráticos e mais comprometidos com o desenvolvimento humano e social sustentável e capazes de funcionar como espécies de “meta-partidos”. Pessoas vinculadas a essas redes voluntárias de participação política cidadã poderão então entrar nos partidos que existem e se candidatar a cargos diretivos internos e a cargos representativos externos. Mas só conseguirão fazê-lo se estiverem suficientemente empoderadas por articulações que estão fora do domínio dos chefes tradicionais, os quais, como sabemos, não têm qualquer interesse na mudança das concepções e das práticas políticas vigentes.

(Para entrar em contato com essa temática (ou problemática), é impossível deixar de ler, por exemplo, o livro seminal de Pierre Levy (1994): “A inteligência coletiva”; o livro de Steven Johnson (2001): “Emergência”; o livro de Manuel Castells (2001): “A galáxia da Internet”; e dois textos recentes de David de Ugarte: “11M. Redes para ganar una guerra” (2006) e “El poder de las redes” (2006). Vale a pena explorar também (e levar a sério) a metáfora “The Matrix”, não apenas assistindo a trilogia, mas lendo a coletânea: Irwin, William (org.)
(2002). “Matrix: bem-vindo ao deserto do real”.)